quarta-feira, 2 de março de 2011

Um livro sobre o Julgamento de Jesus

Bismael B. Moraes


"Nenhum julgamento serviu, como o de Jesus, para uma negação tão insistente, obstinada e acatada de que foi um erro judicial e deu margem a um crime jurídico". (do Juiz Haim Cohn Hermann, ex-Presidente da Suprema Corte de Justiça de Israel).

SUMÁRIO: 1- Introdução. 2- Um Juiz em busca de respostas. 3. Confronto: Evangelhos x Fontes Jurídicas. 4- Datas dos Evangelhos e seus testemunhos. 5- Análise do Evangelho de Marcos. 6- Análise do Evangelho de Mateus. 7- Análise do Evangelho de Lucas. 8- Análise do Evangelho de João. 9- Jesus foi condenado por Tribunal Judeu? 10- Controvérsias Evangélicas e as Leis Romanas e Judias. 11- Mais coerente é o Evangelho de João. 12- Os relatos evangélicos e a realidade histórica.



1. INTRODUÇÃO

Tenha sido por arraigada sedimentação religiosa e dogmática, ou por interesse de análise acadêmica da Teologia, ou por motivos políticos e ou filosóficos, a verdade é que as questões relacionadas à vida e à morte de Jesus, em regra, sempre foram objeto de discussão no mundo todo. (Houve até quem, de forma estapafúrdia, ousasse dizer que essa coisa de religião, no fundo, foi uma invenção do homem fraco e covarde, a fim de manietar e controlar os super-homens...).

Mas, aqui e agora, não vem ao caso eventual questionamento entre religiosos e ateus, entre fiéis e cépticos. Entretanto, na busca do conhecimento, todo trabalho sério, especialmente o de pesquisa, se faz merecedor de reflexão. E é isso o que se pretende: trazer, para reflexão, uma síntese sobre O JULGAMENTO DE JESUS, O NAZARENO.

O tema decorre da leitura do livro de autoria do magistrado Dr. Haim Cohn Hermann, nascido em 1911, ex-Presidente da Suprema Corte de Justiça de Israel, publicado em Inglês, em 1967, com o título "REFLECTIONS ON THE TRIAL AND DEATH OF JESUS", e traduzido para o Português, por Maria de Lourdes Menezes, como "O JULGAMENTO DE JESUS, O NAZARENO", já em 5ª edição, publicação da Imago Editora, Rio de Janeiro, 1990.



2. UM JUIZ EM BUSCA DE RESPOSTAS

Trata-se de uma pesquisa científica do Juiz Haim Cohn, de forma criteriosa e sem pender para discussões doutrinário-religiosas, apenas com o intuito de levantar – como bem esclarece - a verdade da mácula que historicamente pesa sobre os judeus pela morte de Jesus, apontados, em regra, como responsáveis por aquele evento, tão somente com base em registros evangélicos.

Essa empreitada é levada a efeito pelo magistrado Cohn, através da exegese do Direito da época em que Jesus viveu, na busca de respostas para questões como estas: - Que crime praticou Jesus? Quem foi o responsável por Sua prisão? Qual a Lei ou o Direito que Ele violou – da Judéia ou de Roma? Por quem foi Ele julgado e condenado? Quem ordenou a Sua crucificação? A quem imputar a Sua morte – aos judeus ou aos romanos?

Para essa obstinada pesquisa jurídica, sociológica e de costumes, de quase vinte séculos passados, o Dr. Haim Cohn analisou e comparou e Velho Testamento e o Novo Testamento da Bíblia, os antigos Talmudes Jerosolimitano e Babilônico, citando 92 obras de autores diversos, em latim, inglês e, principalmente, em alemão (talvez pela forte influência da Igreja sobre povo germânico), e mais 12 fontes hebraicas, 10 fontes judias, 6 fontes cristãs e 21 fontes romanas, todos da antigüidade, indo ainda à exegese da Mishná ou Michna (codificação da lei oral pós-bíblica realizada pelos sábios, após a queda do Estado judeu, para, a despeito da perda da independência política, preservar a estrutura nacional jurídica) e do Tora (lei mosaica em pergaminho). Dissecou, com apoio no material pesquisado e com base em deduções lógicas, as formas de julgamento do Sinédrio, Tribunal Judeu, com 71 membros, formado por sacerdotes, anciãos e escribas, (para julgar questões criminais e administrativas, bem como delitos de ordem política), ao qual Jesus foi submetido.



3. CONFRONTO: EVANGELHOS x FONTES JURÍDICAS

O Juiz Cohn, depois de registrar que, somente neste Século XX, já foram escritos mais de 60.000 (sessenta mil) livros sobre Jesus, e, dentre eles, vários sobre o Seu julgamento, mostra que o trabalho em tela tem por meta a tentativa de encontrar uma explicação convincente para os fatos e acontecimentos que foram descritas em fontes não-jurídicas (os Evangelhos), indo buscar tal explicação no acúmulo de conhecimentos que "possuímos sobre as instituições e os conceitos jurídicos que existiam naquela época e lugar". E esclarece que, para o empreendimento, "e valor dessas fontes, seja como fontes sagradas (teológicas) ou factuais (históricas), está fora de discussão"; não serão convertidos em fontes jurídicas. A idéia da pesquisa é confrontar os fatos (descritos nos Evangelhos e noutras fontes) à luz do Direito Romano e sua aplicação, bem como diante das leis judias em vigor por volta daquela época.

Na introdução do seu livro, aquele magistrado faz uma advertência: "Não podemos afirmar que a nossa atitude seja compartilhada por todos os juristas que já se ocuparam desse tema até agora. Muito ao contrário: tenho diante de mim quatro livros, de juristas ingleses e norte-americanos – Lord Shaw, Taylor Innes, Powell e MacRuer, todos eles cristãos fervorosos... Eles consideram tudo que está escrito no Novo Testamento como material jurídico por excelência, uma espécie de testemunho válido sobre o que não pode haver dúvidas".


4. DATAS DOS EVANGELHOS E SEU TESTEMUNHO

Em sua pesquisa científica dentro do Direito, o Dr. Cohn mostra que nenhum dos quatro Evangelhos (de Marcos, Lucas, Mateus e João) inclui depoimentos de testemunhas presenciais dos eventos que descrevem. Com base no livro "Jesus and the Origins of Christianity", de Goguel, está demonstrado que o Evangelho de Marcos foi escrito por volta do ano 70 da Era Cristã (do nascimento de Cristo); o Evangelho de Lucas data, aproximadamente, do ano 85; e o Evangelho de Mateus veio à luz, mais ou menos, no ano 90; e o Evangelho de João, por volta do ano 110.

Assim, tomando como fonte o pesquisador Winter, em seu livro "On the Trial of Jesus", escreveu o Juiz Haim Cohn: "Logo, o Evangelho de Marcos foi escrito cerca de quarenta anos após a crucificação de Jesus, e Lucas escreveu, mais de duas gerações depois desses acontecimentos. Disso se depreende que os depoimentos ali existentes não correspondem a testemunhas presenciais". E acrescenta ser possível que os relatos dos Evangelhos "sejam uma tradição conservada pela congregação de crentes e transmitida de geração em geração. Mas, se serviam para saciar a curiosidade biográfica dos crentes sobre a morte de Jesus, não continham nenhum tipo de documentação jurídica". Os Evangelhos, assim, não foram escritos como bases históricas, mas como meio de difundir o cristianismo, aí recorrendo, por vontade do evangelista – como é o caso de João – a utilização livre de sua imaginação, "para acrescentar detalhes e melhorar a descrição, não aceitando limitações antiquadas ao apresentar, não história mas teologia".

Consta da pesquisa de Dr. Haim Cohn o registro de um dos mais antigos escritores, que teria vivido entre o ano 55 e o ano 115, de nome Tacitus, o qual, em seu "Annales", com tradução de Dvoretzky, em 1962, "relata de passagem, para explicar o significado do nome Cristão (de seita perseguida durante o reinado de Nero), que Cristo é o pai de todos os cristãos e que foi executado na época do Imperador Tibério pelo Governador Pôncio Pilatos".

Diz o magistrado Cohn: alguns pesquisadores sustentam que "de tudo que está escrito nos Evangelhos, só podemos aceitar que Jesus viveu e foi crucificado, sendo o resto meros adornos para maior glória da fé". E acrescenta que "a interpretação dos acontecimentos descritos nos Evangelhos é uma questão aberta, e todo aquele que os ler ou analisar poderá fazer a sua própria interpretação... No que diz respeito às causas do julgamento de Jesus e à sua condenação, como também às circunstâncias, ao fundamento e ao objeto do julgamento, não aceitaremos o que está escrito nos Evangelhos como testemunhos indubitáveis; nossa atitude para com eles será a de um juiz cuidadoso e neutro, com a liberdade absoluta de quem tem diante de si um livro aberto".



5. ANÁLISE DO EVANGELHO DE MARCOS
Na análise dos quatro Evangelhos, começa pelo Evangelho de Marcos, registrando, em síntese, o seguinte:

Judas, discípulo de Jesus, segundo a tradição, o entregou aos perseguidores, com um beijo, no momento em que o Nazareno repousava no Horto de Getsêmani;

os perseguidores – uma turba com espadas e porretes – vinham da parte (por ordem) dos principais sacerdotes, escribas e anciãos;

Jesus foi conduzido à casa do Sumo Sacerdote (Caifás, como registra Mateus), à noite, onde os principais sacerdotes, anciãos e escribas, em domicílio (reunidos), buscaram testemunhos contra o mesmo, para entregá-lo à morte, mas não o conseguiram; (era um interrogatório noturno);

no meio do concílio, o Sumo Sacerdote perguntou a Jesus: "Nada respondes ao que testemunham contra ti? És tu o Cristo, Filho de Deus?" E Jesus respondeu: "Eu sou", momento em que o Sumo Sacerdote, rasgando sua veste (que era o costume, ao ouvirem o que entendiam por blasfêmia), disse: "Que mais necessidade temos de testemunhas? Ouvistes a blasfêmia?" E todos o declararam digno de morte e alguns cuspiram-lhe e deram-lhe murros e bofetadas;

de manhã, levaram Jesus, amarrado, a Pôncio Pilatos, Governador da Judéia, e este perguntou: "És tu o Rei dos Reis?", tendo o Nazareno respondido: "Tu o dizes". Como os principais sacerdotes O acusavam muito, Pilatos voltou a interrogar Jesus: "Nada respondes do que te acusam?". E Jesus calou, admirando-se Pilatos;

e como era costume libertar um preso por ocasião de festividade (e era festa da Páscoa), Pilatos perguntou ao povo (que tinha direito a tal pedido) se deveria perdoar a pena do homem a quem chamam Rei dos Judeus ou a de Barrabás (um homicida), a população, incitada pelos líderes dos sacerdotes (que invejavam a fama de Jesus), pediu a libertação do homicida e a morte de Jesus: "Crucifica-o";

e Pilatos, mesmo tendo dúvidas quanto ao crime de Jesus (-"que mal fez ele" – perguntou), atendeu a vontade do povo;

e os soldados romanos levaram Jesus ao pátio do tribunal (Sinédrio), convocando a companhia (de soldados) para as zombarias e os maus tratos, conduzindo-o depois à crucificação, no lugar chamado Gólgota ("lugar da Caveira");

os soldados obrigaram o transeunte Simão Cirineu (da cidade de Cirene) a acompanhá-los, carregando a cruz (muito pesada para Jesus), onde seria realizada a crucificação;

os soldados deram a Jesus vinho com mirra, que ele não bebeu, e, depois de crucificá-lo, repartiram entre si Suas vestes, deixando-o entre dois ladrões, isso na terceira hora (cerca de 9 horas da manhã), de forma zombeteira;

e, cerca de seis horas depois da crucificação, (com os passantes escarnecendo de Jesus: "Salva-te a ti mesmo e desce da cruz"), Ele clamou: "Deus, meu Deus, por que me abandonaste?". E, a seguir, expirou.



6. ANÁLISE DO EVANGELHO DE MATEUS

O Evangelho de Mateus, nesse episódio, em linhas gerais, repete o que diz o Evangelho de Marcos, acrescentando, porém, o seguinte:

que duas testemunhas afirmaram, quando do interrogatório noturno na casa de Caifás (Sumo Sacerdote), terem ouvido Jesus dizer que podia "derrubar o templo de Deus e em três dias reedificá-lo";

e que Jesus, ao ser instado por Caifás sobre isso, nada respondeu;

fala também do arrependimento de Judas, que devolveu as trinta moedas de prata aos principais sacerdotes e anciãos, mas Jesus já estava diante do Governador Pilatos;

que a mulher de Pilatos pediu para que ele não se envolvesse "com o sangue desse justo", porque em sonhos muito sofrera por causa dele;

e Pilatos, vendo que não conseguia demover a turba, uma vez que a multidão era insuflada pelos principais sacerdotes e anciãos, que queriam a morte de Jesus, tomou água e lavou as mãos diante do povo, dizendo: "Sou inocente do sangue deste justo", e libertou Barrabás, açoitou Jesus e o entregou para ser crucificado.



7. ANÁLISE DO EVANGELHO DE LUCAS

Já o Evangelho de Lucas traz algumas diferenças marcantes, tais como as seguintes:

Jesus estava com seus discípulos, no Monte das Oliveiras, quando Judas, com seu beijo, o entregou à turba composta pelos principais sacerdotes, os chefes da guarda e os anciãos;

na casa do Sumo Sacerdote, bateram em Jesus e dele zombaram, vendando-lhe os olhos e perguntando-lhe: "Profetiza: quem foi que te bateu?" de manhã, reunidos os principais sacerdotes, os anciãos do povo e os escribas, Jesus foi trazido diante de concílio, quando então lhe perguntaram: "És tu o Cristo?" E Jesus respondeu: "Se vos disser, não acreditareis.... Mas, desde agora, o Filho do Homem se sentará à direita do Poderoso Deus". E todos disseram: Logo, tu és Filho de Deus". E Jesus respondeu: "Vós dizeis que o sou"; e toda a multidão levou Jesus a Pilatos, acusando-o assim: "Perverte a nação e proíbe de dar tributos a César, dizendo que ele mesmo é um rei". E Pilatos o interrogou: "És tu o Rei dos Judeus?" E Jesus respondeu: "Tu o dizes".

E Pilatos disse a todos os resentes: "Nenhum delito acho neste homem"; depois, sabendo que Jesus era galileu e da jurisdição de Herodes, que reinava na Galiléia e que, naquele dia, também se achava em Jerusalém, mandou que O levassem àquele rei; Herodes alegrou-se ao ver Jesus, porque ouvira falar dele e queria vê-lo fazer milagres;

porém, dirigindo algumas perguntas a Jesus e este se mantendo em silêncio, Herodes escarneceu dele e mandou-o de volta a Pilatos;

e até por isso houve reconciliação entre Herodes e Pilatos, que eram inimigos;

e Pilatos, convocando os principais sacerdotes, os anciãos e o povo, disse que, tendo interrogado a Jesus e nele não achando crime algum, e também Herodes não O considerando culpado, iria soltá-lo, depois de tê-lo castigado; mas Pilatos não pôs Jesus em liberdade, fazendo-o a Barrabás (preso por sedição e homicídio), atendendo ao clamor da multidão e dos principais sacerdotes; e na hora Sexta (que é meio dia), houve treva sobre toda a terra, e, na hora nona, Jesus clamou em voz alta: "Pai, em tuas mãos encomendo meu espírito", e expirou.



8. ANÁLISE DO EVANGELHO DE JOÃO

No Evangelho de João, há outras diferenças, como podem ser observadas a seguir:

Jesus com seus discípulos em um horto, do outro lado do Cedron, sendo o lugar conhecido por Judas, que lá estivera com Ele e os demais seguidores;

Judas tomou uma companhia de soldados e guardas dos principais sacerdotes e dos fariseus, conduzindo-os ao lugar com lanternas, tochas e armas;

Jesus perguntou: "A quem buscais?", e a resposta foi: "A Jesus, o Nazareno". E ele disse: "Sou eu". E a companhia de soldados, o tribuno e os guardas dos judeus o prenderam e amarraram;
foi levado primeiro à casa de Anás, sogro de Caifás (sumo sacerdote), tendo este último interrogado Jesus sobre seus discípulos e sua doutrina;

Jesus respondeu a Caifás: "Sempre ensinei nas sinagogas e no templo, e nada falei às ocultas. Por que perguntas a mim? Pergunta aos que escutaram, o que lhes falei eu". E um guarda que ali estava deu uma bofetada em Jesus, dizendo: "Assim respondes ao sumo sacerdote? "E Jesus disse: "Se falei mal, testemunha em que está o mal; e se falei bem, por que me bates?";

Anás enviou Jesus amarrado a Caifás, onde foi mantido até de manhã, sendo dali conduzido ao tribunal; mas os que conduziram (não se sabe quem foi) "não entraram no pretório para não se contaminarem e poderem comer na páscoa";

Pilatos veio do Tribunal e perguntou aos condutores de Jesus a respeito de que o mesmo era acusado, ao que lhe responderam: "Se não fosse malfeitor, não o entregaríamos a ti". E disse Pilatos: "Tomai-o e julgai-o segundo a vossa lei". Mas os "judeus" responderam: "A nós não nos é permitido matar ninguém";

Pilatos voltou ao pretório (tribunal) e perguntou a Jesus: "És tu o Rei dos Judeus? Tua nação e os principais sacerdotes te entregaram a mim. Que fizeste?" E Jesus respondeu: "Meu reino não é deste mundo". Voltou Pilatos a perguntar: "Logo, tu és rei? "E disse Jesus: "Tu dizes que eu sou rei. Eu para isto nasci e para isto vim ao mundo. Para dar testemunho da verdade".

foi Pilatos outra vez "aos judeus", dizendo que não havia achado nenhum delito em Jesus; porém, alegando que os judeus tinham o costume de libertar um preso na Páscoa, perguntou: "Quereis, então, que vos liberte o rei dos judeus?" E todos gritaram: "não este, mas Barrabás"; e o evangelista explica que este era ladrão;

Pilatos voltou a sair do tribunal, dizendo ao povo não ter achado delito em Jesus, este trazendo uma coroa de espinhos e um manto de púrpura, tendo assim acrescentado aos principais sacerdotes e aos guardas: "Eis o homem". E todos gritaram: "Crucificai-o! Crucificai-o!" E Pilatos disse: "Tomai-o vós e crucificai-o, porque eu não achei delito nele";

os judeus responderam: "Nós temos uma lei, e segundo essa lei ele deve morrer, porque fez a si mesmo Filho de Deus". E Pilatos teve medo destas palavras, retornando ao tribunal com Jesus, a quem perguntou: "De onde és?", e não recebeu resposta;

e disse Pilatos: "Não sabes que tenho autoridade para crucificar-te e para salvar-te?" E respondeu Jesus: "Nenhuma autoridade terias contra mim, se ela não te fosse dada de cima";

e quando Pilatos tentou pôr Jesus em liberdade, os judeus gritaram: "Se a estes soltas, não és amigo de César. Todo aquele que se faz rei se opõe a César". E Pilatos levou Jesus para fora, sentou-se no Pavimento e disse: "Eis aqui o vosso rei". E os judeus gritaram: "Fora, fora, crucificai-o". E perguntou Pilatos: "Ao vosso rei devo crucificar?" E os principais sacerdotes responderam: "Não temos outro rei senão César";

e Jesus foi entregue nas mãos dos judeus para que fosse crucificado, e estes o levaram; Jesus carregava a cruz ao lugar chamado de Caveira (Gólgota, em hebreu), e ali o crucificaram, tendo sido Pilatos quem escreveu uma inscrição colocada sobre a cruz: "Jesus Nazareno, Rei dos Judeus", em hebraico, grego e latim;

os principais sacerdotes judeus se dirigiram a Pilatos: "Não escreva Rei dos judeus, mas que ele (Jesus) disse: "Eu sou o rei dos judeus", ao que Pilatos respondeu: "O que escrevi, escrevei";

e, por fim, Jesus despediu-se de sua mãe e de seu discípulo, dizendo que tinha sede; então havia ali uma vasilha de vinagre, e, com uma esponja em sua boca, Jesus bebeu vinagre e disse: "Está consumado"; e, inclinando a cabeça, entregou seu espírito.

Com essas e outras observações, confrontando os quatro Evangelhos – de Marcos, Mateus, Lucas e João -, o juiz Haim Cohn procura mostrar as informações, em alguns casos, até contraditórias entre os evangelistas, cada um deles escrevendo sobre os mesmos fatos em épocas diferentes, para concluir que esses escritos não podem ter valor científico como história.



9. JESUS FOI CONDENADO POR TRIBUNAL JUDEU?
Numa análise mais profunda do Direito antigo, para verificar se os judeus – embora tendo suas próprias normas, mas achando-se sob o domínio romano – tinham o poder de aplicar a pena de morte, o magistrado Cohn leva-nos a melhor refletir sobre a condenação e crucificação de Jesus. Mostra, por exemplo, os seguintes registros:

de um sumo sacerdote que solicitou autorização do governador romano para convencer o Sinédrio para tratar de um possível caso de pena de morte;

que em papiros egípcios encontra-se que governadores romanos no Egito costumavam utilizar os tribunais locais para efetuar investigações preliminares;

a tradição encontrada, tanto no Talmude da Babilônia como no Talmude de Jerusalém, segundo a qual, quarenta anos antes da destruição do templo, foi retirada de Israel a autoridade para impor a pena de morte. (Observação: a destruição do templo corresponde à perda de autonomia judia, ao desaparecimento da soberania política da Judéia).

Assim, o autor Haim Cohn conclui: se, quarenta anos antes da destruição do templo, já se havia tirado os judeus o direito de julgar questões penais de vida ou morte, não poderia ter sido um tribunal judeu que condenou Jesus à pena capital.

Foi, segundo o Dr. Cohn, de acordo com registros da tradição babilônica e jerololimitana, que "os cristãos começaram a publicar e difundir textos de propaganda e apologia, na segunda metade do século II, para sublinhar e realçar as diferenças entre eles e os judeus, não apenas no que se refere à fé, como também à fidelidade política aos governantes romanos".

"Já haviam sido publicados os Evangelhos, nos quais a tendência a desprestigiar os judeus encontrou um fundamento de peso. Se o fundador da religião cristã e seu criador. (Jesus) era inocente aos olhos do governador romano, que não encontrou mácula nele nem em sua religião, isso aparentemente comprovaria que a dita religião pode coexistir com a fidelidade ao Império". (grifos nossos). E conclui o magistrado Haim Cohn: "E se apesar de tudo Jesus foi crucificado como um criminoso, isso se deve apenas à maldade dos judeus e de seu Sinédrio, que sabiam muito bem como era grande para eles o perigo implícito na nova religião, que terminaria acabando com a religião dos judeus".

O livro mostra que não havia sido encontrada prova de que as autoridades romanas tivessem alguma vez concedido autoridade judicial ao Sinédrio de forma explícita, fosse genericamente para o direito penal ou fosse para certos delitos em casos particulares. "O Sinédrio nada mais era do que um tribunal local em sua terra ocupada, que atuava apenas sob a autoridade do governador (romano) e segundo a sua vontade".

"Em resumo",- esclarece o autor-, " o Sinédrio só estava autorizado a julgar delitos segundo a lei judia, assim como o governador romano só estava autorizado a julgar delitos segundo o Direito Romano".

Por exemplo, profanar o templo não representava delito, de acordo com o Direito Romano, mas o era segundo o Direito Judeu: nesse caso, o governador romano poderia entregar o assunto para o Sinédrio.


10. CONTROVÉRSIAS EVANGÉLICAS E AS LEIS ROMANAS E JUDIAS

No Evangelho de Lucas, quando a multidão (de judeus) levou Jesus a Pilatos, depois de o terem interrogado (os principais sacerdotes e anciãos), foi o Nazareno acusado: "Perverte a nação e proíbe de dar tributo a César, dizendo que ele mesmo é um rei". Aí, pelo evangelista Marcos, Jesus estaria sendo acusado pelos judeus como tendo infringido a lei romana, pois se colocava como rei e desafiava o Imperador Romano. Já no Evangelho de João, quando Pilatos entrega Jesus aos judeus, dizendo: "Tomai-o e crucifica-o, porque eu não achei nenhum delito nele", os judeus responderam: "Nós temos uma lei, e, segundo a nossa lei, ele deve morrer, porque fez a si mesmo Filho de Deus". Aqui, evidentemente, por esse relato de João, Jesus teria infringido a lei judia!

Aliás, o registro do Evangelho de João vai mais longe: quando Pilatos tentou pôr Jesus em liberdade, os judeus gritaram (preferindo que Barrabás fosse solto): "Se este soltas" (referindo-se a Jesus), "não és amigo de César. Todo aquele que se faz rei se opõe a César". Assim, depois que João escreveu que, segundo a lei judia, Jesus deveria morrer, "porque fez a si mesmo Filho de Deus", procura mostrar que os judeus, vendo a intenção de Pilatos em soltar Jesus, teriam como que colocado o governador contra a parede: "se soltas um homem (Jesus) que se faz rei e se opõe a César, então não és amigo de César!"

Por outro lado, o Evangelho de Marcos registra que Jesus praticou blasfêmia diante do sumo sacerdote, quando este o interrogou; "És tu o Cristo Filho de Deus?", e o Nazareno respondeu: "Eu sou". E o sumo sacerdote, diante do concílio, interrogatório em sua casa, disse: "Ouvistes a blasfêmia?" (E colocar-se na posição de Filho de Deus, para a lei judia, era delito de blasfêmia, que podia levar à morte!) É claro que os interlocutores ou não entendiam ou não queriam entender o que Jesus dizia!

Embora de relance, pelo Evangelho de Mateus, Jesus também teria praticado delito contra a lei judia, quando registra que duas testemunhas afirmaram que, no interrogatório noturno, na casa de Caifás, o Nazareno teria dito que podia "derrubar o templo de Deus e em três dias reedificá-lo".



11. MAIS COERENTE É O EVANGELHO DE JOÃO

O livro do Dr. Haim Cohn, para demonstrar uma espécie de tendência não discutida quanto à responsabilidade dos judeus pela morte de Jesus, cita inclusive a existência de dois outros personagens com o nome JESUS: um teria sido bruxo e instigador (bruxaria e instigação tinham a pena de morte pela lei judia), sendo a sua morte por lapidação, às vésperas da páscoa (conforme registro do Talmude Babilônico); chamava-se Ben Setda ("Ben", no hebraico, é Filho; "Setda", segundo os sábios amoraítas, é pseudônimo talmúdico de Maria, mãe de Jesus). É registro do século III, d. C., refletindo uma tradição equivocada, pois tal personagem foi preso e morto na cidade de Lod; e outro, que existiu aproximadamente entre os anos 150 a 100 a.C. também instigou os judeus à idolatria e, por isso, foi condenado à morte por lapidação (apedrejamento) pelo tribunal, às vésperas da páscoa, sendo depois o seu corpo colgado (pendurado na madeira) e, no mesmo dia, enterrado. Esse segundo Jesus teria sido aluno de Joshua Ben Perahya. O autor registra, até, que o nome de Nazaré (de Jesus de Nazaré) teria nascido de um acréscimo, por desconhecimento de cronologia histórica, apenas porque no Talmude Babilônico há o relato de que Joshua Ben Perahya "empurrou Jesus de Nazaré com ambas as mãos". Teria vivido antes do Cristo. Não há fonte talmúdica que afirme o julgamento de Jesus de Nazaré.

O magistrado Haim Cohn, depois de analisar tantos documentos e de confrontar as inúmeras versões sobre o julgamento de Jesus, pondo inclusive por terra a eventual conspiração de Judas, que teria ajudado, por moedas, na busca e prisão do Nazareno (porque Jesus era sumamente conhecido, e os seus percursos em Jerusalém e nos arredores eram de conhecimento geral, não havendo objetivo real e justificativa plausível para a traição, nem razão histórica para isso), mostra-se propenso em aceitar que o relato do Evangelho de João é o mais coerente: segundo esse evangelista, Jesus foi preso por "um tribuno romano no comando de sua corte, toda ou parte dela, em presença da guarda do templo". Entende que o relato merece fé, e já foi aceito pela maioria dos pesquisadores, "porque, de todos os evangelistas, é João o que mais exagera na defesa dos romanos e na crítica aos judeus".

Os livros de Marcos, Mateus e Lucas são chamados de Evangelhos sinópticos (porque permitem uma visão de conjunto de suas versões) pelo Dr. Haim Cohn, pois, dentre outros registros, falam que, no momento da prisão de Jesus, a multidão estava armada com espadas e garrotes ou porretes, enquanto João fala de velas, tochas e armas, não restando dúvidas de que as armas eram dos soldados romanos.



12. OS RELATOS EVANGÉLICOS E A REALIDADE HISTÓRICA

Com base do Direito Judeu, o autor entende que nos registros dos Evangelhos há muita coisa irreal e impossível, especialmente em relação ao Sinédrio:

este não podia se reunir para casos de direito penal, na casa do sumo sacerdote, mas só no recinto oficial;

não estava autorizado a se reunir à noite;

casos possíveis de pena de morte não eram julgados em dias festivos, nem em vésperas de festa;

nenhum acusado pode ser condenado à morte pela sua confissão;

só se condena um homem em julgamento, se pelo menos duas testemunhas o tenham visto cometer o ato de que é acusado;

só será condenado o homem, se duas testemunhas disserem que o preveniram para não praticar o ato;

o blasfemo não é considerado culpado desde que não pronuncie expressamente o nome de Deus, na presença de testemunhas".

Se o julgamento assim se deu, "foi ilegal desde o início até o fim", e "Jesus foi vítima de um assassinato judicial".

Depois de provar que os relatos evangélicos não servem como relatos válidos para a história como ciência, o magistrado Haim Cohn explica que "as perseguições aos judeus, judiciais e extraconjugais, todas elas se produzem no fundo da fonte consciente ou inconsciente, como castigo pela "culpa deles" na crucificação de Jesus. Isso porque, o interesse dos Evangelhos era eminentemente religioso e missionário, e sua tendência era apologética com respeito ao Império Romano. Essa descrição intencional e equivocada obteve difusão mundial, convertendo-se em dogma e conquistando a metade do orbe. Foi apagada e esquecida a verdadeira realidade histórica".

É um livro que exige do leitor muita reflexão, sem preconceito.

(*) Bismel B. Moraes, Mestre em Direito Processual pela USP, Professor da Academia de Polícia "Dr. Coriolano Nogueira Cobra" de São Paulo e da Faculdade de Direito de Guarulhos, é ex-Presidente da Associação dos Delegados de Polícia do Estado de São Paulo.

O Julgamento de Jesus

O julgamento de Jesus
Harry Fogle


Há tanto misticismo e confusão acerca da crucificação e ressurreição que acabamos perdendo de vista o fato de que Jesus de Nazaré foi julgado como homem diante de uma corte de homens sob as leis dos homens, condenado e executado como homem, e que como drama, o julgamento de Jesus supera quaisquer dos grandes julgamentos da história da justiça humana.
Abordarei esse assunto como advogado, não como teólogo. Recomendo a pesquisa dos aspectos teológicos dos eventos por conta de cada um. Creio que ter o ponto de vista de um advogado sobre os processos da lei que culminaram na morte de Jesus na cruz cruel do Calvário pode levar a uma melhor compreensão espiritual.
De início eu quero enfatizar que não considero que uma raça inteira de pessoas (os Judeus) tenha causado a morte de Jesus. E também não creio que nenhum Cristão inteligente pensaria isto.
Minha opinião é que apenas uns poucos homens poderosos em Israel - principalmente os sacerdotes superiores daquela nação - foram os responsáveis pela injustiça que ocorreu. Para entender quão grande foi essa injustiça, vamos examinar a lei Judaica como ela existia na época... Um verdadeiro e magnífico sistema de justiça criminal.
Sob as provisões da lei Judaica não poderia haver condenação por um crime capital baseado no testemunho de menos que duas pessoas. Uma testemunha era considerada a mesma coisa que nenhuma testemunha. Se houvessem apenas duas testemunhas, ambas teriam que concordar em todos os particulares até os mínimos detalhes. Sob a lei rabínica, o acusado tinha o direito de ter um defensor (o precursor da garantia de ter um advogado em processos criminais que é definido pela Sexta Emenda da Constituição dos Estados Unidos). Se o acusado não pudesse pagar pela defesa, um defensor seria escolhido para ele. Alguém poderia pensar no caso Gideon versus Wainwright, que deu origem ao sistema de defensores públicos como uma inovação. Mas na realidade essa era a prática das cortes desde há 2000 anos atrás!
Sob a lei Mosaica, um acusado não poderia ser obrigado a testemunhar contra si mesmo. Esse era o espírito da Quinta Emenda: "Ninguém deve ser obrigado a servir de testemunha contra si próprio em nenhum caso criminal." Eis o conceito de "apêlo a Quinta Emenda", que fez parte da justiça criminal desde os tempos de Moisés!
Uma confissão voluntária não era suficiente para a condenação sob a lei Judaica. O ônus da prova ainda era do Estado, que tinha que provar que a confissão, se houvesse sido feita, teria sido feita livremente, de forma voluntária e de plena consciência.
Hoje em dia, os policiais norte-americanos são obrigados a ler os "direitos Miranda" ("Você tem o direito de ficar calado. Tudo o que disser poderá ser usado contra você.", etc ...) para os acusados de forma que a Corte possa determinar que uma confissão seja feita livremente, voluntariamente e conscientemente.
Se uma confissão é feita depois que a lei Miranda foi ouvida e compreendida, a confissão pode ser admitida. Mas não era assim nos tempos de Jesus. A lei Judaica não admitia confissão, sob a crença de que o Estado jamais poderia se basear no que uma pessoa disse de sua própria boca para condená-la.
Uma evidência circunstancial é aquela que não está diretamente ligada ao crime, mas sim relacionada à outras evidências, que juntas, servem para que se deduza como um crime foi realizado. Em um julgamento, as impressões digitais da pessoa (evidência circunstancial) servem para deduzir que o acusado esteve em tal local e tocou em tal objeto, mesmo que ninguém tenha visto o acusado.
No caso em que uma testemunha diz "ouvi um tiro e quando cheguei à cena segundos depois, vi o acusado com uma arma na mão", essa evidência é circunstancial. O problema é que o acusado pode ter disparado um tiro contra o agressor que fugiu após o crime ou o acusado pode ter sido apenas alguém que pegou a arma depois que o agressor a jogou no chão.
Pois bem, as evidências circunstanciais também não eram admitidas. Hoje em dia, raramente se vê um caso nas cortes onde as evidências circunstanciais não sejam usadas. Atualmente, em muitos casos as únicas evidências existentes são totalmente circunstanciais.
Os depoimentos do tipo "ouvi fulano falar isso" (o "ouvir dizer") também não eram admitidos na época. Ainda temos essa regra contra admitir depoimentos de testemunhas que não estão no tribunal e que não podem ser examinadas pessoalmente, mas as exceções à essa regra têm demolido as proteções originais aos acusados.
A regra "inocente até prova em contrário" que nossas leis reconhecem hoje (isto é, um acusado é presumido inocente até que sua culpa tenha sido estabelecida por evidências e pela eliminação de qualquer dúvida razoável) também vem da lei Judaica e essa era a regra quando Jesus foi injustamente crucificado.
O acusado de um crime capital só podia ser julgado durante o dia e em público. Esse era o precursor da garantia constitucional de um julgamento em público.
Nenhuma evidência poderia ser apresentada se o acusado não estivesse presente. Isso deu origem ao atual direito que os acusados têm de estarem face a face com as testemunhas depondo contra eles. As testemunhas não tinham que jurar. O mandamento "Não dirás falso testemunho contra o teu próximo" era considerado suficiente para deter o perjúrio. Mentir na corte era perjúrio - sob juramento formal ou não.
E mais ainda, havia dois desestímulos adicionais ao perjúrio: (1) qualquer testemunha em um caso de crime capital que desse falso testemunho recebia a pena de morte, e (2) se o acusado de um crime capital fosse condenado, as testemunhas eram obrigadas a assistir à execução. Sob essa provisão da lei, as testemunhas geralmente escolhiam suas palavras cuidadosamente e só davam testemunho com grande cuidado!
O Grande Sinédrio, a Suprema Corte Judaica, era a única corte com jurisdição sobre crimes puníveis com a morte. A criação do Sinédrio é atribuída à Moisés. Foi uma corte de 70 membros composta de um Sumo Sacerdote como juiz principal, uma Câmara Religiosa de 23 sacerdotes, uma Câmara Legal de 23 escribas, e uma Câmara Popular de 23 anciãos. Era a essa corte que Jesus se referia quando ele disse que devia ir a Jerusalém e sofrer nas mãos dos anciãos, sacerdotes e escribas. Ele sabia que pela decisão deles ele seria morto.
Extremo cuidado era usado para selecionar os juízes dessa grande corte. Cada um devia ter pelo menos 40 anos de idade com experiência em pelo menos 3 cargos de dignidade gradativamente maior. Cada um tinha que ser uma pessoa de integridade incontestável e tido em alta estima por seus conterrâneos.
Membros do Sinédrio atuavam como juízes e jurados. Eles não tinham um júri separado. Qualquer membro com interesses ou conhecimento pessoal das partes era requerido que se retirasse do julgamento. A Corte tinha que decidir a questão da culpa ou inocência apenas com evidências apresentadas no tribunal.
O Sinédrio era encarregado sob a lei rabínica de proteger e defender o acusado. Nenhum membro da corte poderia atuar inteiramente como acusador ou promotor.
A lei requeria que a corte desse aos acusados o "benefício da dúvida" e para ajudar o acusado a estabelecer sua inocência.Os procedimentos de julgamento eram similares aos nossos. Seguindo-se à audiência preliminar, um sumário das evidências era dado por um dos juízes. Os espectadores eram então removidos do tribunal e os juízes votavam. Uma maioria era suficiente para condenar ou absolver. Se uma maioria votasse pela absolvição, o julgamento terminava e o condenado recebia a liberdade total. Se uma maioria votasse pela condenação, então um procedimento diferente era seguido.
Nenhum anúncio de veredito poderia ser feito nesse dia. A corte teria que adiar por um dia inteiro. Os juízes recebiam permissão para voltarem às suas casas mas não poderiam ocupar suas mentes em quaisquer atividades sociais ou de negócios. Eles tinham que devotar seu tempo inteiro para a consideração e reconsideração solene das evidências e retornar no dia seguinte para votar de novo.
Nesse segundo dia, qualquer juiz que houvesse votado pela absolvição não poderia mudar seu voto, mas qualquer juiz que, na primeira votação, houvesse julgado o acusado como "culpado" poderia mudar seu voto.
Durante esse tempo, o acusado ainda era presumido inocente.
Uma outra provisão peculiar da lei Judaica era de grande importância, porque um veredito unânime de culpa resultava na absolvição do acusado! Isso derivava do dever que a corte tinha de proteger e defender o acusado. A lei Mosaica estabelecia que desde que algum membro da corte tinha que fazer a defesa do acusado, um veredito unânime de culpa indicava que ninguém teria feito essa defesa, que poderia ter havido uma conspiração contra o acusado, e que ele não teria tido um amigo ou defensor. Tal veredito unânime era inválido e tinha o efeito de uma absolvição.
Israel não era uma democracia com Igreja e Estado separados, mas uma teocracia com Igreja e Estado entrelaçados como uma coisa só. Muitos acreditam que os altos sacerdotes ordenaram a prisão e julgamento ilegal de Jesus, que eles foram quem subornaram Judas, que eles sozinhos é que se sentiram ameaçados pelos ensinamentos de Jesus em público, e que eles sozinhos é que buscaram a morte de Jesus.
A prisão foi ilegal porque ela veio de noite, em violação à lei. Ela foi efetuada através das atividades do conspirador Judas Iscariotes em violação à lei rabínica. Ela não foi resultado de um mandado legal, novamente em violação ao código Mosaico. Os guardas romanos que prenderam Jesus no Jardim de Gethsemane e o trouxeram ao tribunal do Sumo Sacerdote não tinham uma ordem de prisão legal. O julgamento noturno é uma evidência adicional de conspiração contra Jesus por esses sacerdotes cuja hipocrisia o Carpinteiro denunciava publicamente. Sob a lei do Sinédrio, o primeiro passo deveria ter sido a audiência prévia com a leitura das acusações para o réu em uma corte aberta. O registro (incluindo os escritos de Mateus, Marcos, Lucas, João, Josephus, Philo e os Manuscritos do Mar Morto) não menciona nenhum audiência prévia. E eu assumo que Mateus, Marcos, Lucas e João são testemunhas com credibilidade. Nós podemos crer em seus testemunhos.
O registro diz que a corte procurou testemunhos falsos contra Jesus para justificar condená-lo à morte mas da primeira tentativa não conseguiram, apesar dos várias testemunhos falsos que surgiram. Houve perjúrios entre eles mas ninguém estava disposto a arriscar a terrível conseqüência de mentir contra um homem acusado de crime capital.
Mas finalmente surgiram duas falsas testemunhas, e nos disseram Mateus e
Marcos que ambos os testemunhos não concordam entre si. A primeira testemunhou para acusação de blasfêmia dizendo que Jesus havia dito "Eu sou capaz de destruir o Templo." A segunda testemunhou que Jesus havia dito "Eu vou destruir esse Templo."
Não houve outras testemunhas além dessas duas, e elas não concordavam entre si. Jesus deveria ser absolvido ainda antes de ser questionado em sua defesa... E certamente sem ser obrigado a testemunhar contra si próprio.
Porém, o sumo sacerdote Caifás invocou Jesus para que se defendesse (contrariando a lei). "E, levantando-se o sumo sacerdote no Sinédrio, perguntou a Jesus, dizendo: Nada respondes? Que testificam estes contra ti?" Jesus não respondeu.
Em vez de proteger e defender o acusado como requerido pela lei deles, o próprio sumo sacerdote se tornou o acusador, em franca violação das regras do julgamento. "Conjuro-te pelo Deus vivo", ele gritou, "que nos digas se tu és o Cristo, o Filho de Deus !"
Agora, coloquemo-nos na posição de um carpinteiro humilde diante dos homens mais poderosos do país, no maior tribunal da nação. É difícil imaginar quão grande foi a coerção e a pressão!
Embora Jesus pudesse continuar em silêncio, ele decidiu falar. "Se vo-lo disse, não o crereis, e também, se vos perguntar, não me respondereis." Os sacerdotes novamente perguntaram "És tu o Filho de Deus ?" A resposta de Jesus foi apenas "Vós dizeis que eu sou." Caifás então anunciou à Corte "De que mais testemunho necessitamos? Pois nós mesmos o ouvimos da sua boca." O resto dos homens daquela corte terrível, ouvindo essas palavras ditas pelo seu sumo sacerdote, ilegalmente confirmaram seu julgamento gritando "É réu de morte !"
A primeira audiência diante do Sinédrio foi concluída por volta das três da manhã. A Corte só adiou o julgamento até o nascer do sol, embora a lei exigisse que cada um deles deliberasse a sós por um dia inteiro antes da segunda audiência.
Eles retornaram apenas algumas horas depois, ao amanhecer. Lucas nos conta "E logo que foi dia, ajuntaram-se os anciãos do povo, e os principais dos sacerdotes e os escribas, e o conduziram ao seu concílio." Essa sessão foi superficial. Nenhuma testemunha foi invocada. Novamente a lei foi violada ao se exigir que Jesus respondesse à questão repetida "És tu o Filho de Deus?"
E novamente Jesus respondeu "Tu o disseste", e então acrescentou "digo-vos, porém, que vereis em breve o Filho do homem assentado à direita do Poder, e vindo sobre as nuvens do céu." Diante disso, a corte gritou "Para que precisamos ainda de testemunhas? Eis que bem ouvistes agora a sua blasfêmia."
A votação foi feita, os votos dos juízes foram contados, e Marcos nos conta "todos o consideraram culpado de morte." A importância disso reside naquela provisão peculiar da lei Judaica que requeria a absolvição se houvesse veredito unânime.
Sob a lei Judaica, a morte por apedrejamento era a sentença apropriada para uma ofensa capital. O povo Judeu não crucificava e esse método de executar a pena de morte era de origem Grega ou Romana. Os Judeus executavam os condenados por apedrejamento, decapitação ou estrangulamento de acordo com a natureza do crime. Para a blasfêmia era prescrita a morte por apedrejamento.
No entanto, o exército Romano que ocupava Jerusalém na época era o único com poder de anunciar e executar sentenças de morte. O Sinédrio tinha apenas autoridade para levantar a acusação perante um magistrado Romano ou governador militar, o qual tinha o dever de rever o processo inteiro em um julgamento separado tendo poder para decidir. Portanto, "logo ao amanhecer, os principais dos sacerdotes, com os anciãos, e os escribas, e todo o Sinédrio, tiveram conselho; e, ligando Jesus, o levaram e entregaram a Pilatos."
Normalmente se diz que o reino de Judah nos deu a religião e a Grécia nos deu as artes, mas Roma nos deu as leis. O sistema judicial Romano era incomparável em matéria de jurisprudência, mas Pilatos não seguiu o sistema Romano. Ele não exerceu julgamento independente de acordo com a lei mas cedeu às pressões políticas dos sacerdotes Judeus, violando assim a própria lei que ele estava encarregado de fazer cumprir.
Sua história é um exemplo de como os juízes devem ser sempre livres de pressões políticas, livres para decidir os casos baseando-se apenas na lei e nas evidências. Como Procurador Imperial na Jerusalém ocupada pelos Romanos da época, Pilatos tinha o dever legal de rever todas as evidências e procedimentos nos casos capitais trazidos até ele pelos líderes Judeus. Ele foi um bom juiz (até que a segurança de seu cargo foi ameaçada pela política).
Os sacerdotes levaram Jesus para a entrada do palácio de Pilatos. (Eles não poderiam entrar porque se tornariam impuros, sendo uma época de Páscoa.) Pilatos foi até eles dizendo "Que acusação trazeis contra este homem?".
Essa pergunta é importante porque demonstra a intenção de Pilatos em levar o caso como um julgamento à parte desde o início, começando a julgar a própria acusação. Ele não perguntou "Vocês condenaram esse homem de quê ?", mas em vez disso perguntou quais eram as acusações.
Os sacerdotes sabiam a importância da pergunta de Pilatos, então eles responderam indiretamente "Se este não fosse malfeitor, não te entregaríamos." Em outras palavras, Pilatos perguntou "qual a acusação contra este homem?" e os sacerdotes responderam "se ele não fosse culpado não estaria aqui!"
Pilatos percebeu essa tentativa de limitar sua jurisdição e induzi-lo a agir de acordo com a vontade deles. Isso o irritou e ele revidou: "Levai-o vós, e julgai-o segundo a vossa lei !" Os sacerdotes foram então forçados a admitir "A nós não nos é lícito matar pessoa alguma."
Tentemos entender o dilema desses sacerdotes em violação às leis. Se eles apresentassem Jesus como um homem condenado por blasfêmia com o depoimento de apenas duas testemunhas que não concordaram entre si, Pilatos reverteria o veredito. Se eles apresentassem Jesus como alguém condenado por sua própria confissão, Pilatos também dispensaria o veredito. E, é claro, se eles informassem que Jesus havia sido condenado por votação unânime, Pilatos entraria com um veredito de absolvição.
Então, os maliciosos sacerdotes apresentaram Jesus a Pilatos sob uma nova acusação que eles inventaram naquele momento: traição contra César. "Havemos achado este, pervertendo a nossa nação", disseram eles, "proibindo dar o tributo a César, e dizendo que ele mesmo é Cristo, o rei."
Pilatos chamou Jesus para dentro do palácio e o perguntou em privado "Tu és o rei dos Judeus?" E Jesus perguntou a Pilatos para saber a origem da nova acusação: "Tu dizes isso de ti mesmo, ou disseram-te outros de mim?" Pilatos replicou "a tua nação e os principais dos sacerdotes entregaram-te a mim", explicando com isso de onde havia sido originada aquela acusação de traição.
Era uma coisa plausível que um Judeu acusasse um Romano de traição ou que um Romano acusasse um Judeu, mas naquele momento eram os Judeus mais proeminentes da nação acusando um de seus conterrâneos de crime de traição contra Roma!
Jesus disse a Pilatos "O meu reino não é deste mundo." E Pilatos insistiu "Logo tu és rei? "Jesus respondeu "Tu dizes que eu sou rei. Eu para isso nasci, e para isso vim ao mundo, a fim de dar testemunho da verdade. Todo aquele que é da verdade ouve a minha voz."
Pilatos então fez a famosa pergunta "Que é a verdade ?"
Jesus não deu resposta alguma senão a presença silenciosa de Si, o cordeiro levado ao sacrifício por mentirosos, de forma que Pilatos saiu para onde os sacerdotes estavam e, de acordo com João, pronunciou sua absolvição enfática do carpinteiro Nazareno. Ele disse a eles "Não acho nele crime algum!"
Até então, Pilatos havia seguido a lei à risca. A lei era boa. A lei teria libertado Jesus mas pela persistência desses maldosos sacerdotes que não se importavam em nada com as leis pelas quais eles mesmos governavam a terra e seus habitantes.
Era intolerável para esses inimigos da verdade que seu complô assassino fosse frustrado dessa maneira. Os sacerdotes soltaram rugidos de indignação "Alvoroça o povo ensinando por toda a Judéia, começando desde a Galiléia até aqui."
Essa acusação era a de sedição (revolta, motim, crime contra o Estado), que era menos odiosa que a traição. Ela exigia a prova de uma motivação corrupta para a condenação, mas ainda nenhum motivo maldoso se pode provar que existira em Jesus.
Pilatos ignorou essa acusação, mas com a referência à Galiléia, ele encontrou uma oportunidade de escapar do que o esperava. Herodes, o Tetrarca da Galiléia, estava em Jerusalém para a Páscoa. Pilatos viu nisso uma chance de transferir a responsabilidade para Herodes, que tinha jurisdição para julgar acusações de sedição. Jesus era Galileu. Os sacerdotes aprovaram essa ação porque eles pensavam que Herodes faria o que eles quisessem para ganhar seus favores.
Jesus foi arrastado até o palácio de Herodes, onde as acusações de traição e sedição foram reiteradas.
Herodes, contudo, não se impressionou. Ele havia ouvido a respeito dos ensinamentos de Jesus e o questionou, mas quando Jesus se recusou a responder (um direito de todo acusado), Herodes colocou nele uma túnica branca e o mandou de volta a Pilatos sem dar uma decisão. Se esse procedimento irregular tivesse qualquer status legal, ele levaria a uma nova absolvição. Pilatos concordou.
Lucas nos conta que quando os sacerdotes trouxeram Jesus de volta do palácio de Herodes, Pilatos saiu de encontro a eles e disse "Haveis-me apresentado este homem como pervertedor do povo; e eis que, examinando-o na vossa presença, nenhuma culpa, das de que o acusais, acho neste homem. Nem mesmo Herodes, porque a ele vos remeti, e eis que não tem feito coisa alguma digna de morte. Castigá-lo-ei pois, e soltá-lo-ei."
Notemos que Pilatos naquele momento cometeu um erro. Ele declarou "Esse homem é inocente. Herodes o julgou inocente e eu o julguei inocente. Eu vou, portanto, castigá-lo e soltá-lo !" Mas que autoridade legal tinha Pilatos para castigar um homem inocente? Porque ele fez isso?
Apesar de contrária à lei Romana, eu creio que Pilatos fez isso na esperança de que o castigo deixaria os sacerdotes satisfeitos de modo que eles cessariam suas exigências de morte. Assim, Pilatos ordenou o castigo de Jesus, não com uma punição branda, mas com o açoitamento até quase matar, com tiras de couro embutidas com pedaços de chumbo!
A imposição desse açoitamento ilegal foi, em si, um impedimento para punições ainda piores. Qualquer punição adicional violaria as leis tanto de Roma como de Israel, que estabeleciam que, já tendo o acusado sido condenado e punido, ele não poderia ser julgado novamente pelo mesmo crime.
João diz que "desde então Pilatos procurava soltá-lo", mas Jesus foi levado ao quartel dos soldados e despido de sua túnica branca que havia sido dada por Herodes, foi coberto com uma capa púrpura, coroado com uma guirlanda de espinhos, dado uma cana como cetro, e levado para ser confrontado pelos irados sacerdotes novamente.
Pilatos anunciou "Eis aqui o homem."Os sacerdotes responderam "Crucifica-o!" Tudo isso por ter Jesus desafia do a autoridade daqueles homens que estavam dispostos a violar as leis para causar sua morte, homens que por esta razão corromperam sua própria autoridade.
Pilatos então disse "Tomai-o vós, e crucificai-o; porque eu nenhum crime acho nele." Ali estava um juiz de leis dizendo "este homem é inocente, mas vocês podem matá-lo se o quiserem."
É claro que isso não satisfez os sacerdotes. Eles não ousariam crucificar Jesus sem uma aprovação inequívoca de uma autoridade Romana, porque fazer isso os sujeitaria a uma represália, possivelmente até a morte, nas mãos dos Romanos.
"Nós temos uma lei", eles insistiram, "e, segundo a nossa lei, ele deve morrer porque se fez Filho de Deus." E ao dizer isso, eles revelaram a Pilatos que sua verdadeira queixa contra Jesus era, na verdade, a acusação de blasfêmia.
Pilatos, que não havia ouvido ainda essa acusação, mais uma vez levou Jesus à parte e perguntou "Donde és tu ?" Essa era a equivalente à nossas modernas perguntas "De onde você vem ? Qual é a sua intenção?" Pilatos queria saber o que Jesus poderia ter feito para enraivecer tanto os sacerdotes ao ponto de violarem as leis sagradas de sua nação para condená-lo à morte ilegalmente.
Jesus não respondeu nada. Pilatos então vociferou "Não me falas a mim? não sabes tu que tenho poder para te crucificar e tenho poder para te soltar?"
Jesus apenas respondeu "Nenhum poder terias contra mim, se de cima te não fosse dado."
Pilatos novamente procurou soltar Jesus, mas os sacerdotes enraivecidos exclamaram "Se soltas este, não és amigo do César." Essa era uma ameaça à Pilatos. Poderia haver graves conseqüências se a mais alta corte de Israel denunciasse Pilatos à César. Pilatos sentiu que uma interpretação errada de seu julgamento poderia chegar aos ouvidos de César. Ele poderia ser visto como se estivesse protegendo alguém que era considerado pelos mais influentes de seus conterrâneos como culpado de traição. Pilatos não teve a coragem de lutar pela justiça contra esses sacerdotes coléricos.
Foi então que a esposa de Pilatos o enviou uma mensagem: "Não entres na questão desse justo."
Seu apelo levou Pilatos a tentar um último esforço para salvar Jesus sem arriscar seu cargo. Era costume durante a Páscoa de libertar um prisioneiro escolhido pelo povo. Pelo voto popular, as pessoas poderiam conceder anistia a qualquer um sentenciado à morte.
Eu vejo esse como um dos mais dramáticos momentos de toda a História, mas muito do drama passou despercebido pelos autores e dramaturgos, e uma lamentável confusão resultou em 2000 anos de animosidade desnecessária entre Cristãos e Judeus. Foram os sacerdotes Judeus que buscaram a morte de Jesus, não o povo.
O nome Barrabás em Hebraico significa filho de Abás. Pedro era referido por Mateus como "Pedro bar Jonas", isto é, Pedro filho de Jonas. Bar Mitzvah é traduzido literalmente como Filho da Lei. O nome de Barrabás também era Jesus: Jesus Barrabás.
A pergunta de Pilatos aos sacerdotes foi "Qual quereis que vos solte? [Jesus] Barrabás, ou Jesus chamado Cristo?" Eles clamaram, é claro, pela libertação de Barrabás, o notório ladrão e assassino. "Que farei então de Jesus, chamado Cristo?", perguntou Pilatos. Eles gritaram "Seja crucificado!" "Hei de crucificar o vosso rei?", perguntou Pilatos. E aqueles sacerdotes (que odiavam César como só os povos conquistados podiam odiar) disseram a Pilatos "Não temos rei senão o César!"
Pilatos enfraqueceu diante daquela ferocidade implacável e entregou Jesus para que o crucificassem. Ele tomou uma bacia de água diante dele, lavou suas mãos nela e anunciou "Estou inocente do sangue deste justo: considerai isso."
Pilatos mandou gravar na cruz "Jesus de Nazaré, o Rei dos Judeus". Caifás e os outros sacerdotes foram a Pilatos e pediram "Não escrevas 'Rei dos Judeus', mas que ele disse 'Sou Rei dos Judeus'." E Pilatos respondeu "O que escrevi, escrevi."
Jesus foi julgado desde antes de sua audiência. Ele foi acusado de três crimes separados. Os sacerdotes do Sinédrio o condenaram ilegalmente por blasfêmia. Pilatos se recusou a reconhecer esse procedimento inicial. Pilatos, por duas vezes, absolveu Jesus da acusação de traição. Ele foi acusado de sedição diante de Pilatos e Herodes, mas foi absolvido por ambos. E ainda assim, Jesus foi executado porque pretensamente se assumiu que ele havia sido considerado culpado de traição. Ameaçado com a possível perda de seu cargo, Pilatos escolheu crucificar Jesus como a maneira mais fácil de calar os coléricos sacerdotes.
Antes das doze horas daquele mesmo dia, Jesus foi crucificado em violação às leis de Israel e Roma, fechando o mais tenebroso capítulo da história da administração judicial e invocando o supremo chamado que o mundo jamais ouvira para que humanos obrassem pela justiça. Dois dos sistemas de leis mais esclarecidos que existiram foram prostituídos para destruir o homem mais inocente que já passou pela face da Terra.
Essa história nunca vai morrer, porque de sua verdade sempre nasce a esperança de toda a humanidade. Mais do que qualquer outro episódio na história do mundo, o julgamento de Jesus clama a todos os homens e mulheres de boa vontade para que trabalhem por um sistema de governo humano pelo qual possamos viver juntos em paz e segurança sob um Estado de Direito administrado com reverência pela Verdade e pelo Amor Caridoso.

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

10 alongamentos matinais

1. Esforço

2. Respeito

3. Reconhecimento de mim e do meu próximo

4. Estado de abertura

5. Não falar mal dos outros

6. Não rebaixar o que é espiritual

7. Vivenciar experiências espirituais

8. Não desejar coisas em troca

9. Lembrança de si

10. Pensar por si só

Compreendendo o Quarto Caminho

Introdução

É pretendido dar uma compreensão do sistema do Quarto Caminho, que é um ensinamento esotérico sobre o possível desenvolvimento interior do ser humano. Tratar as ideias, as práticas e os exercícios, a terminologia, o processo e o seu objectivo, as exigências e o resultado da transformação num estudante do Quarto Caminho. No fim destes encontros, deve saber-se claramente o que é o Quarto Caminho e se é o caminho que se deseja seguir.

O ensinamento esotérico é um sistema psicológico mas difere daquilo a que hoje se costuma chamar psicologia. A moderna psicologia científica estuda o homem tal como o encontra ou como o supõe ser. A psicologia esotérica estuda o homem do ponto da vista da sua possível evolução. Esta perspectiva de psicologia é a que é usada nestes encontros — o ponto da vista da possível evolução do homem.

segundo encontro

Esoterismo

Esoterismo é qualquer ensinamento sobre o desenvolvimento interior do Homem.
Um ensinamento Esotérico é um tipo especial de conhecimento que tem de ser aprendido e gradualmente compreendido através do desenvolvimento emocional. Pretende-se produzir uma mudança permanente profunda e autentica no indivíduo.

O ensinamento esotérico existiu durante toda a historia do Homem sob diferentes formas e em diferentes escolas. Em períodos diferentes, "foi semeado" no mundo para nos dar orientação.

Nicoll: "em cada época, é semeado no mundo o ensinamento esotérico que mostra o sentido em que a evolução individual deve seguir… Na época actual foi-nos dado o ensinamento esotérico contido nos evangelhos que indicam o caminho para a evolução individual nesta fase."

A palavra "esotérico" é geralmente mal interpretada como 'secreto' ou 'oculto'. Escolas esotéricas existiram durante muitos milhares de anos, mas no mundo tecnológico pré-industrial consistiram de grupos isolados relativamente pequenos. A grande maioria das pessoas nunca ouviu falar do esoterismo e muito poucos entraram em contacto com uma verdadeira escola. A mentalidade de "sociedade secreta" ligada ao esoterismo vem em parte desta ignorância devida às circunstâncias e é usada em algumas escolas do Quarto Caminho como uma táctica de venda. As pessoas adoram segredos, adoram elitismo, 'chapéus', e grupos hierárquicos previamente combinados. Mas esotérico não significa secreto ou escondido, refere-se ao significado interior de cada coisa.

Gurdjieff: "em primeiro lugar, este conhecimento não é ocultado; e em segundo lugar não pode, pela sua própria natureza, tornar-se propriedade pública."

O conhecimento esotérico não é escondido, está disponível, no entanto, a esmagadora maioria não o consegue ouvir ou se o faz, acha-o fantástico, ou mesmo desnecessário.

O ensinamento esotérico é para aqueles que não estão satisfeitas consigo próprios ou com a vida como ela é; aqueles que sentem que deve haver algum significado maior na vida e anseiam por nele encontrar o seu próprio significado. Se estamos em grande parte satisfeitos connosco, com o tipo de pessoa que somos, o esoterismo não é o nosso caminho.

Devemos ter uma pergunta em nós próprios, sentir vontade de compreender, vontade de integridade, vontade de significado e razão de ser própria. Então, quando procuramos, quando o encontramos pudemos "ouvir".

Descrição geral e objectivo

O Quarto Caminho é um ensinamento esotérico sobre o possível desenvolvimento pessoal da consciência no ser humano. O homem foi criado como um ser potencialmente auto-evolutivo.

Nicoll: "o homem é semeado na terra… com a possibilidade de desenvolvimento interior, e a existência deste Trabalho, a existência do ensinamento de Cristo e a existência de muitos outros ensinamentos, é devida unicamente a esse facto — que o homem é criado como um organismo capaz de se submeter a uma evolução interior."

Este sistema usa ideias, práticas, e exercícios desenhados para gerar uma mudança gradual do nível de compreensão, na perspectiva da mente e da natureza do carácter. Pode ser praticado na vida — na nossa vida, como ela é agora. Não há necessidade de abandonar as circunstâncias e entrar numa comunidade separada para estar no Quarto Caminho. A sua metodologia psicológica é para ser praticada na vida quotidiana em todas as suas circunstâncias e com todas as pessoas que lhe pertencem.

Requer dois tipos de esforço — trabalho com o nosso conhecimento e trabalho com o nosso Ser, porque combinados os dois criam a compreensão. Todo o desenvolvimento depende inteiramente dos nossos próprios esforços e motivos. A sinceridade é crítica tal como a honestidade. É um processo de uma vida inteira visando criar uma psicologia que seja correctamente ordenada para ser capaz de receber inspiração divina ou o que o Quarto Caminho chama influências superiores (C).

É chamado o Quarto Caminho em relação ás três outras abordagens ao desenvolvimento interior da vontade. A primeira a do faquir; a do corpo físico desenvolvendo "a vontade do corpo". A segunda é a do monge que dá forma a um eixo de devoção religiosa, amor a deus, criando "vontade emocional". A terceira é a do yogi, que desenvolve a "vontade da mente".

Este sistema ensina que todos somos considerados como tendo três corpos dados — físico, emocional e intelectual — e um quarto corpo potencial que deve ser criado pela vontade. Um caminho que desenvolva só um dos corpos é desequilibrado. Um faquir pode desenvolver uma enorme vontade física e talvez consiga manter os seus braços levantados por anos. Para quê? Não desenvolveu o seu corpo emocional ou o seu corpo intelectual e assim com a sua "vontade" não pode fazer nada de valor. É quase a mesma coisa com os outros dois caminhos. O monge é subdesenvolvido física e intelectualmente. O yogi é subdesenvolvido física e emocionalmente. O ensinamento evolutivo do Quarto Caminho trabalha com todos os três corpos dados simultaneamente para produzir "o homem equilibrado" capaz de desenvolver "vontade consciente".

Os quatro corpos são chamados na terminologia cristã as naturezas, carnal, natural, espiritual e divina. No Quarto Caminho, estes são o primeiro corpo, segundo corpo, terceiro corpo, e quarto corpo.

O primeiro corpo é a parte a mais externa: o corpo físico que experimenta sensações. É-nos dado já organizado, mas funciona mecanicamente e respondendo a impressões externas.

O segundo corpo é o corpo emocional e é uma desorganizada massa de sentimentos e desejos, mudando constantemente, sem nenhuma direcção, respondendo automaticamente. É mais interior do que o primeiro corpo.

O terceiro corpo é o corpo intelectual que é a sede dos pensamentos e das funções do pensamento. É também uma massa desorganizada de pensamentos em mudança estimulados aleatoriamente.

O quarto corpo é o corpo divino. É acessível apenas através da "vontade" criada no ordenar dos segundo e terceiro corpos. Desenvolvendo Vontade Consciente ao organizar os seus três corpos dados é-lhe dado acesso ao corpo ou natureza divinos, que é indescritível. Se isto é conseguido, o quarto corpo tem então existência e possui consciência, individualidade, e vontade. O quarto corpo-de-vontade é mestre. É a nossa parte mais interior.

O funcionamento do homem subdesenvolvido é iniciado pela vida externa. o seu primeiro corpo, o corpo físico, experimenta sensações que causam emoções no segundo corpo que encontram expressão em pensamentos no terceiro corpo. Neste caso, não há nenhum quarto corpo, nenhum corpo-vontade, apenas uma barafunda, de pequenas e opostas vontades momentâneas estimuladas por emoções e pensamentos desorganizados. As suas funções são governadas por sensações mutantes da vida externa.

Neste sistema, o homem desenvolvido é dirigido pela consciência no seu quarto corpo e obedece à vontade divina. Neste caso, a parte a mais interior dirige as funções dos outros três corpos. O conhecimento consciente do quarto corpo compreende o que qualquer circunstância necessita e a vontade divina dirige os pensamentos no terceiro corpo a respeito destas necessidades produzindo correspondentes emoções desinteressadas no segundo corpo que cria acções apropriadas no primeiro corpo. Desta maneira, o que é mais elevado gera acções intencionais e os três corpos dados são sujeitos a elas.

A aquisição de um corpo divino é um processo similar ao do baptismo. O Quarto Caminho é a instrução prática no processo desta aquisição.

Gurdjieff, Ouspensky e Nicoll

Gurdjieff (1872-1949)

Tanto tem sido escrito sobre o enigmático George Ivanovitch Gurdjieff que seria difícil para qualquer pessoa distinguir entre facto e ficção ou, neste caso, entre intriga e idolatria. A bisbilhotice é fácil e a informação em segunda-mão é subjectiva. O que é geralmente aceite é que era Greco-Arménio, iniciado na sua juventude na tradição Sufi e possivelmente monge ortodoxo num certo ponto da sua vida. Também, viajou extensivamente através do Egipto, da Grécia, da Índia, e do Cáucaso procurando escolas de esoterismo. Em 1917, saiu da Rússia com um pequeno grupo de estudantes e estabeleceu-se em França eventualmente em 1922. Aí compra uma residência em Fontainebleau e abre o que chamou de Instituto para o Desenvolvimento Harmonioso do Homem onde ensinou o Quarto Caminho.

Os seus métodos eram controversos e o seu comportamento pessoal às vezes chocante. Houve sempre um debate sobre os seus motivos, acções, e legitimidade. Mas o Sr. Gurdjieff só pode ser encontrado no Trabalho do Quarto Caminho, no sistema que ensinou. À luz da compreensão do trabalho, da sua magnitude e significado, encontra-se Gurdjieff e depois disso bisbilhotar ou discutir as suas fontes torna-se irrelevante. A beleza e a importância do Quarto Caminho que trouxe à civilização ocidental validam a sua autenticidade, mas apesar das suas reputação obra e personalidade extravagante, permaneceu modesto. Deu este estrito concelho aos seus potenciais estudantes: "nunca confundam o cargueiro com a sua carga".

Ouspensky (1878-1947)

Peter Demianovich Ouspensky nasceu em Moscovo. Era um intelectual, foi jornalista por alguns anos tendo viajado no leste, na Europa e na Rússia. Em 1907, descobriu a ideia do esoterismo e prosseguiu os seus estudos em muitos países e em métodos diferentes. A sua busca levou-o ao Egipto, à Grécia, à Índia, ao Ceilão e a muitos outros países. Estudou também literatura oculta, o yoga, o Tarot, e métodos mágicos. Deu conferências públicas durante a sua busca do miraculoso.

Encontrou-se com Gurdjieff em 1915 em Moscovo e ficou de tal maneira impressionado que arranjou grupos a quem Gurdjieff apresentou seu ensinamento. Ouspensky e Gurdjieff tiveram um relacionamento pessoal difícil e, em 1918, Ouspensky começou a sentir: "eu tinha cessado de o compreender e considerava necessário separar Gurdjieff do sistema, de que eu não tinha dúvida nenhuma". Em 1922 ajudou na mudança de Gurdjieff para Fontainebleau em França que visitou subsequentemente diversas vezes. Ouspensky finalmente quebrou abruptamente com Gurdjieff em 1924 mas continuou o seu próprio trabalho em Londres. Após a morte de Ouspensky em 1947, o manuscrito de seu livro "fragmentos de um ensinamento desconhecido" foi enviado a Gurdjieff que disse: "antes odiava esse homem, agora amo esse homem." O livro foi publicado em 1949 e re-intitulado "em busca do miraculoso".

Nicoll (1884-1953)

Maurice Nicoll nasceu em Kelso, Scotland numa família nobre. Frequentou a faculdade e doutorou-se em medicina e tornou-se psicólogo praticando em Londres. Estuda diversos anos em Paris, em Berlim e em Viena, e trabalhou com Carl Jung por algum tempo. Em 1914, serviu no o Royal Army Medical Corp em Gallipoli e na Mesopotamia durante a primeira grande guerra. De volta a Inglaterra, foi oficial médico responsável do hospital do império que tratava homens com ferimentos na cabeça e espinal.

Encontrou-se com Ouspensky em 1921 e interessou-se pelo ensinamento. Algum tempo mais tarde fechou a sua prática em Londres e foi viver no instituto em Fontainebleau, onde trabalhou com Gurdjieff directamente. Quando regressou a Inglaterra, recebeu de Ouspensky permissão para passar as ideias que tinha recebido de ambos os professores. Começou o seu ensinamento em 1931 em Inglaterra e continuou até sua morte em 1953.

A estrutura geral do sistema

Há três aspectos da estrutura geral do Quarto Caminho na maneira como foi ensinado em Fontainebleau — a cosmologia, os movimentos, e o trabalho.

A Cosmologia

Há muito a ganhar com o estudo da cosmologia do Quarto Caminho. No entanto, no começo, diria que uma das ideias principais deste sistema é a verificação: "verifique tudo por si-próprio". A cosmologia é um modelo do universo para a expansão da mente. O estudo dele pode dar uma perspectiva de escala e de relatividade e expandir a mente dimensionalmente. Algumas das ideias agem como uma espécie de choque, desenhadas para nos despertar um pouco ou fazer com que pensemos de modo diferente sobre a criação em geral e sobre o nosso lugar e significado nela. Se reflectirmos nas ideias, podemos começar a ter uma mudança na nossa compreensão.

O Raio da Criação é o modelo cosmológico primordial sobre o ordenamento do universo. Todas as coisas criadas são ordenadas de acordo com leis. De outra maneira só existiria caos — desordem. Este sistema ensina que o universo é vivo e em desenvolvimento, procurando unidade e consciência. A sua estrutura é representada no Raio da Criação.

O raio mostra-nos sete níveis de criação, começando com o absoluto, que está sujeito a uma só lei — a lei da sua própria vontade. O segundo nível é o nível de todos os possíveis sistemas estelares ou as galáxias e está sob três leis. Cada nível subsequente está sujeito ao número de leis do nível precedente e, adicionalmente, ao mesmo número de leis no seu próprio nível. Assim o terceiro nível, que é o nível de nossa Via Láctea, está sob três leis do segundo nível e três leis do seu próprio, consequentemente seis leis pertencem a esse nível. O quarto nível é o nível de nosso sol que está sob doze leis. O quinto é o nível dos planetas como uma massa, sob vinte e quatro leis. O sexto é o nível da nossa terra, sob quarenta e oito leis. O sétimo é o nível da nossa lua, sob noventa e seis leis.

O raio da criação ensina que toda a matéria é energia que se condensa enquanto se move afastando-se para mais longe da sua fonte no absoluto, transformando-se em matéria mais grosseira e mais densa. Ensina que a nossa terra e os seres humanos nela aparecem bastante longe no raio e são consequentemente sujeitos a muitas leis: as leis de natureza, as leis da física, a lei do acidente, etc. Ensina que o homem é um ser auto-evolutivo criado para uma finalidade especial na função do Raio da Criação. Por essa razão, foi-nos dada a livre vontade para escolher a evolução.

Gurdjieff: "há somente uma evolução e uma não-evolução."

Realmente, há também a degeneração que é certamente não-evolução, mas não é uma condição estática. É possível também perder a habilidade de se tornar consciente através da degeneração.

Essa finalidade especial do Raio da Criação para que fomos criados, individualmente e colectivamente, é expressa nos seus termos mais simples na cosmologia pela tabela dos hidrogénios. A nossa finalidade pode ser mais elementarmente entendida como "transformação de energias", de vibrações mais grosseiras em vibrações mais finas.

A lei de Sete, ou a Lei de Oitavas, na cosmologia é um ensinamento sobre o ordenar da criação em níveis diferentes — no macrocosmos do universo e no microcosmos do homem.

Um dos pontos mais importantes de compreender ao estudar o Raio da Criação é que a natureza do absoluto é algo perfeito, Divino.

A lei de três, às vezes chamada lei da trindade, ensina que em cada manifestação de qualquer coisa no universo, três forças devem estar presentes. Elas são 1) força activa, 2) força passiva, e 3) força neutralizante. As forças activas e passivas cancelam-se essencialmente uma à outra e não produzem nada. Uma terceira força neutralizante é necessária para trazer os opostos a relacionar-se a fim produzir "algo".

A cosmologia do Quarto Caminho é expansora da mente e ilumimadora. Pode dar-lhe uma avaliação da magnitude deste ensinamento uma perspectiva do seu objectivo, incluindo choques ideológicos que ajudam a criar momentos de consciência mais elevada. Nas escolas do Quarto Caminho, e neste sistema, ensina-se que se deve começar no trabalho com o estudo da cosmologia e isso pode ter a validez das referidas razões. No entanto, ao faze-lo, descobrir-se-à eventualmente que toda a cosmologia não pode ser verificada e estamos instruídos a não aceitar nada por fé. Mais importante, seja qual for o conhecimento que se receber não resulta em transformação pessoal. Mesmo o mais astuto conhecimento da cosmologia não pode produzir uma transformação permanente da consciência, que é o objectivo de todo o ensinamento esotérico.

Os movimentos

No instituto em França, os estudantes participaram na aprendizagem de "danças Sufis" ou "movimentos". Este exercício físico era prática em atenção, em disciplina, em cooperação, em precisão, em perseverança, e mais; inclusive ocupação para os estudantes. As danças eram também, executadas em público para ganhar dinheiro para o instituto. São verdadeiramente extraordinárias. Diz-se que estes movimentos, ou as danças, carregam o significado esotérico. Isto pode ou não Ser assim, pode ou não Ser verificável. Em todo o caso, o facto inevitável é que tal como apenas o conhecimento intelectual da cosmologia do Quarto Caminho não produz uma transformação permanente da consciência, tão pouco o fazem os movimentos.

Apesar disso, muitas escolas do Quarto Caminho insistem que os movimentos devem ser praticados como parte do sistema, e a fim para obter balançado. Este é um sério mal-entendido da ideia "centros equilibrados" ou "homem equilibrado" neste ensinamento. A única exigência física para a transformação da consciência é função do cérebro, assim que não obstante o seu valor relativo, os movimentos não são necessários para a transformação da mente. Nicoll: "nenhuma quantidade de atenção ao corpo criará a transformação."

O trabalho

os exercícios e as práticas psicológicos do Quarto Caminho são o "trabalho" do sistema. São projectados especificamente para ser usados nas experiências da vida diária. Visam o auto-conhecimento, a crescente autenticidade e o tornar-se consciente. Esta é a transformação a que o esoterismo se refere e o trabalho psicológico é meio para o alcançar.

As ideias os exercícios e as práticas do Trabalho são supostos de construir algo dentro nós que nos eleva a um nível mais elevado de consciência. Nicoll: "o conhecimento deste trabalho é tal que pode agir no Ser e em consequência causar a compreensão." Esta acção só pode ocorrer usando a força dos seus esforços pessoais ao praticar o Trabalho. Aplicar estas ideias a nós próprios com sinceridade e diligencia é esforço — Trabalho. Isto é fazer o Trabalho — estar no Trabalho. Muitos estudantes pensam e dizem que estão "no Trabalho" simplesmente porque estão a estudar o Quarto Caminho. Isto não é assim. Tem que se fazer o Trabalho para estar no Trabalho.
Níveis de Consciência

A premissa para supor que pode haver um sistema evolutivo está em compreender a ideia de diferentes níveis num indivíduo. Todas as ideias do trabalho são baseadas em compreender que existem diferentes níveis de consciência. Consequentemente, o movimento de um para outro nível é possível. Nicoll: "tal como é, o homem serve as finalidades da natureza e nada mais é necessário tendo em consideração a sua vida. Mas pode pôr-se sob influências diferentes se o escolher. Pode mudar o seu nível de consciência e consequentemente atrair circunstâncias diferentes de acordo com seu nível."

Neste sistema diz-se que há sete níveis de consciência que consistem em quatro estados que pertencem a três tipos diferentes de homem existentes em diferentes níveis.

Os homens # 1, 2, e 3 todos compartilham os dois primeiros estados igualmente. O primeiro estado é o sono-descanso, sono literal com sonhos. O segundo estado é chamado estado de-pé em que se anda e fala e age na vida mecanicamente. O Trabalho chama também sono ao segundo estado, porque funciona automaticamente sem consciência.

Neste nível de consciência, há apenas a escuridão de estar a dormir. Nenhuma ajuda é possível porque as influências mais elevadas só podem chegar tão baixo como o Terceiro Estado de Consciência. Isto é o que o sistema ensina, mas seria mais exacto dizer que o Homem adormecido — Homem mecânico (os números 1, 2, e 3) não podem perceber as vibrações mais finas que vêm da consciência mais elevada por causa da grosseira natureza de seu ser.

O homem # 4 está no terceiro estado de consciência. Está a começar a acordar através da prática da auto-observação e de Auto-Recordação. Tem um certo grau de auto-conhecimento e Eu real.

O homem # 4 é chamado Homem Equilibrado que em termos gerais significa um homem que funciona correctamente. O homem equilibrado organizou os seus centros (ou corpos) — as funções da sua psicologia. Pode permanecer erecto no centro do balanço do pêndulo dos eventos e das circunstâncias da vida. Conseguir este estado requer um sincero e duro Trabalho psicológico a longo prazo; real Trabalho interior. Mas os esforços coretos feitos para os motivos coretos produzirão a real mudança interior. Do nível do homem # 4, as influências, a inspiração e a compreensão podem alcançá-lo — a luz está presente e a ajuda é possível.

Os Homens números 5, 6, e 7 vivem no Quarto Estado — consciência objectiva. Estes três são chamados "Homens Conscientes", Homem Acordado. A luz está presente e a ajuda está disponível. Neste nível, um homem pode ver as coisas como realmente são.

O homem consciente tem compreensão e perspectiva, consciência intencionalmente desenvolvida e ser, consciência real activa e vontade de fazer. O homem consciente é autentico, vive os seus significado e finalidade na vontade de Deus. É guiado pela inspiração divina, pelo sentido espiritual, pela verdade objectiva, pela consciência real, pela consciência objectiva, e pela bondade sobre todas as coisas. O homem consciente é incapaz de violência.

O sono

vamos ver um exemplo de homem mecânico, isto é, Homem adormecido: Homem # 1, 2 e 3, que significa todos nós.

Examinemos as circunstâncias ordinárias na vida quotidiana de um homem ordinário. Vamos dizer que é casado e tem um cão e trabalho. Acorda de manhã ao som do despertador e imediatamente deseja poder dormir por muito mais tempo. A resignação consegue levar os seus pés até ao soalho. O chuveiro refresca-o e recorda-o de que é hoje sexta-feira. Aliviado e feliz pelo o fim de semana, começa a imaginar as actividades que planeia. Enquanto pensa sobre um evento agradável, entra-lhe sabão para os olhos e imediatamente a raiva ferve. Talvez diga palavrões ou rosne ou qualquer coisa do género. Quando sai do chuveiro com seu olho ardente, encontra o cão a ganir e a riscar na porta da casa de banho. Irritado pergunta-se porque é que a sua mulher ainda não pôs o cão lá fora. Não o pode fazer agora. O cão terá que esperar, diz ele a si mesmo impaciente. Apressa-se a terminar a sua toilete, e deixa cair a escova de dentes e corta-se no queixo enquanto a frustração cresce. A sua mente volta repetidamente à ocasião especial do fim de semana e imagina conversações e cenários onde é o centro da atenção ou onde é apreciado, lisonjeado, e naturalmente sempre correcto. Ou preocupa-se sobre quem estará lá, como o tratarão, se fará uma boa impressão, se gostarão dele ou o embaraçarão. Vestido, sai e descobre que o cão se foi embora e outra vez irritável, pensa como se apressou e se cortou a barbear-se tudo só para descobrir que tudo era desnecessário. O cheiro do café atrai-o e o primeiro golo traz-lhe uma onda do prazer. A sua mulher entra e beijam-se. Está a observar como o tempo está agradável quando a mulher deixa o cão entrar pelas traseiras. O cão salta e seu café quente cai-lhe , queimando sua mão e manchando a sua camisa. Grita ao cão e explode de raiva por causa da camisa. Sai do quarto. Mudar de camisa implica mudar de gravata e agora mal o pode fazer, com os dedos queimados, queixo cortado, e olho a arder. Jura que vai por o cão na escola de obediência. Em primeiro lugar nuca tinha querido aquele cão, tinha sido a ideia dela. Ela pode levar o cão à escola. Agora está-se a fazer tarde, desiste do pequeno almoço, diz um adeus apressado à sua mulher, e vai de cabeça para o trabalho. Há pouco tráfego e a sua música favorita passa, e lembra-o de épocas passadas sentimentais. Fora do azul, recorda que deixou a sua papelada ao pé da cama em vez de a por na sua pasta. Ele vira o volante com a sua mão e pragueja alto. Tem que voltar a casa e agora estará certamente atrasado. Preocupa-se, e responsabiliza o cão, a sua esposa, o shampô, e a sua vida.

Este homem acredita, como cada indivíduo, que é inteiramente consciente, que age por sua própria vontade e está perfeitamente ciente de si-próprio e do que faz. O trabalho diz que um homem que funciona neste nível é um organismo de estimulou-resposta que reage à vida escravizado pelas suas respostas mecânicas. Funciona sem nenhuma consciência ou o intencionalidade e está adormecido para este facto, inconsciente do seu estado.

Isto é sono (estado a-pé, o segundo estado). Todos funcionam desta maneira automaticamente, criando o caos e a violência no mundo.

A ideia de que andam todos a dormir é um choque que pode ajudar a mudar a maneira de pensar. Entretanto, a consciência de que nós mesmos estamos a dormir é um choque de despertar. Esta consciência pode ganhar-se só com a verificação pessoal.

Despertar

A ideia de despertar deste sono deve crescer na consciência e poder agir com intencionalidade em vez de apenas reagir mecanicamente. O obstáculo principal ao despertar desta circunstância é que cada pessoa imagina que possui já a consciência e o auto-conhecimento plenos assim que não o necessita, não o procura, não está interessada. Cada pessoa acredita que age com conhecimento e que possui a vontade para fazer o que quer que escolha fazer.

O trabalho diz-nos que isto é uma ilusão e que a ilusão de ser já correctamente consciente é parte da condição de estar a dormir. Note por favor que o trabalho não lhe diz que a vida é uma ilusão (o que o pode fazer doentio). Diz-lhe que a sua visão subjectiva dela é uma ilusão.

As pessoas não agem. Reagem. Desde o começo da sua vida, cada pessoa reage às circunstâncias que a rodeiam e esta é a única maneira como pode ser. Mas o organismo mecânico, automático de estimulo-resposta, quero dizer, cada um de nós, é criado também como um organismo auto-evolutivo. Nós podemos evoluir na consciência através de esforços intencionais específicos.

A essência, o Eu real, e o Ser

Nascemos com um Eu único (self) com algumas qualidades natas que são observáveis. Como bebes, éramos ou mais activos ou mais passivos e tínhamos uma disposição positiva ou uma disposição negativa predominantemente. Há outros atributos idiossincráticos atuais no nascimento que são mais subtis, mas o ponto é que nascemos já com um EU (self) totalmente único. No trabalho, este é chamado a essência. Contem a nossa razão de ser.

Como crianças, a nossa essência é um pouco como uma ardósia limpa. Tem características e disposição únicas, mas à medida que a essência é influenciada por experiências do ambiente, é formada a personalidade em torno dela. A personalidade é adquirida para nos permitir de interagir com a vida e de sobreviver porque a auto-preservação é a directriz orientadora primaria. No desenvolvimento humano, essa directriz orientadora traduz-se em ganhar poder sobre o ambiente a fim de responder às nossas necessidades com de modo a a poder sobreviver, o que é, apesar de tudo, a primeira precondição necessária para qualquer outra possibilidade.

Assim a essência é a nossa parte mais interior e mais autentica, mas está coberta com uma personalidade que pode não expressar a essência de todo. Recordemos que a personalidade foi formada em torno da essência através de experiências subjectivas da vida e do seu excesso de eventos que sobro os quais não temos nenhum controle. A essência pode desenvolver-se na vida apenas até certo ponto em que chega a vez da personalidade tomar o comando. Permanece por desenvolver e sem poder a menos que seja desenvolvida intencionalmente através do trabalho. A intenção no trabalho é desenvolver a essência até que tenha o poder para dirigir sua personalidade. Este processo implica fazer com que a personalidade adquirida se torne passiva de modo que a essência se possa tornar activa. Se este processo for bem sucedido e a essência se desenvolver, emerge o Eu real.

O Eu real é mestre. Todos temos um Eu real que virá a manifestar a essência desenvolvida na verdadeira personalidade, mas também este deve ser gradualmente alcançado através do trabalho. Existe dentro de nós ao nível da Auto-Recordação, o terceiro estado de consciência. O trabalho ensina exercícios e práticas que ajudam a trazer o Eu real a tornar-se presente. A prática da Auto-Observação informa e ilumina o Eu real e transporta seu sabor porque estão ligados no mesmo nível de consciência.

A personalidade é a nossa parte a mais externa. Por traz da personalidade adquirida está a essência, e por traz da essência está o Eu real. Psicologicamente falando, a essência é interior à personalidade e o Eu real é interior à essência. Eu real é o EU mais elevado. É a verdade do nosso Ser.

O que o trabalho chama Ser, pode grosseiramente descrever-se como a natureza do nosso carácter. Todos possuímos ser em maior ou menor grau. Por exemplo, o Ser de um homem honrado é maior ou acima do Ser de um homem criminoso. Ser existe numa escala, quer dizer, em níveis diferentes e pode ser desenvolvido. Mesmo no inicio do trabalho, é-nos pedido para trabalhar em duas áreas de nós próprios — trabalho sobre o conhecimento e trabalho sobre o Ser. Isso porque é este conhecimento esotérico especial que aplicado ao Ser produz a Compreensão, e diz-se no trabalho que a compreensão é a força mais poderosa que se pode desenvolver. O desenvolvimento da Consciência é inseparável do desenvolvimento do Ser. Andam de mãos dadas.

Um dos elementos na escala do Ser é que os níveis diferentes são descontínuos uns com os outros, como linhas de telefone paralelas entre dois pólos. Os eventos que encontramos num nível de ser podem não existir noutro nível que tenha os seus próprios e diferentes eventos. Nicoll: "o nível de Ser que nos espera mesmo acima da linha actual, que é a nossa evolução, o nosso desenvolvimento interior, o nosso crescimento interior, é descontínuo com nosso nível actual, tal como um lance de uma escada não é contínuo com o seguinte. Temos que saltar."

A ideia a mais importante no trabalho sobre o ser é que "o nosso ser atrai a nossa vida".

A personalidade adquirida — Falsa Personalidade

Como já foi dito, a essência interage com a vida e a personalidade é formada destes infinitos factores idiossincráticos. A personalidade é formada em torno da essência como meio de interacção com a vida e isso é absolutamente necessário. É formada de acordo com leis que se aplicam a todos. Ou seja a sua formulação é ordenada o que explica os traços psicológicos comuns entre todas as pessoas em todos os tempos.

O trabalho chama a esta formação da personalidade a primeira educação. É referida neste sistema como a falsa personalidade e é certamente falsa. (Pode achar-se no entanto que o termo personalidade adquirida é um pouco mais claro e mais específico, menos condensador).

A personalidade em general pode ser descrita como uma colecção dos hábitos.
Hábitos de pensar — pensar nas mesmas coisas das mesmas maneiras;
hábitos do sentimento — emoções recorrentes, estados emocionais repetitivos;
hábitos de falar — repetir as mesmas histórias, as mesmas frases, as mesmas palavras.
Temos hábitos de atitudes e de opiniões.
Temos hábitos do corpo físico — postura, expressões faciais, tensões, movimentos, linguagem corporal;
hábitos de ser e maneiras habituais de responder a eventos da vida.
Adquirimos todos estes hábitos por imitação, por oposição, pela família e pelas influências culturais e da comunidade. Isto é, as influências da vida em que não tivemos nenhuma escolha, consequentemente estes hábitos não são nossos você não são a nossa personalidade.

A nossa personalidade rende-nos automaticamente a vida de acordo com a sua forma ou formulação única. Temos uma atitude sobre algo, uma opinião sobre uma outra coisa, temos sentimentos e pensamentos e estas coisas compõem a nossa experiência. Contudo todos estes hábitos que compõem a nossa personalidade não expressam a nossa essência ou o nosso Eu real. Podemos às vezes sentir isso como um sentimento de sermos umas imitações ou de sermos desconhecidos para nós próprios.

A essência tem que ser desenvolvida intencionalmente assim como o Eu real. Estes dois aspectos não evoluem mecanicamente. Evoluem apenas com os esforços pessoais da atenção e da intencionalidade ensinados no esoterismo, no Trabalho.

Um dos ensinamentos principais sobre a personalidade é que tem a ilusão de unidade. Ouspensky: "a ilusão de unidade é criada no homem em primeiro lugar, pela sensação de um corpo físico, pelo seu nome… e em terceiro, por um número de hábitos mecânicos implantados nele pela educação ou adquiridos por imitação. Tendo sempre as mesmas sensações físicas, ouvindo sempre o mesmo nome, e observando em si os mesmos hábitos e inclinações que já tinha antes, acredita que é sempre o mesmo."

O trabalho ensina que, na realidade, o homem é uma massa desorganizada de Eus sem nenhuma permanência. Cada pensamento, sentimento, sensação, agrado ou desagrado são 'um Eu'. Eus Desligados, contraditórios e mesmo opostos ' dizem "Eu" como se cada um falasse pelo todo de nós. Isto é chamado a doutrina ' dos Eus e embora possa soar incompreensível no início, é facilmente verificado e crucial para o nosso desenvolvimento. Podemos observar dentro de nós próprios a roda giratória 'dos Eus, cada pensamento ou emoção, desejo ou sensação. O homem é uma multiplicidade, não uma unidade. Não há nenhum 'Eu a controlador' ou vontade. Cada 'Eu' tem a sua própria vontade provisória pequena que desaparece quando 'o Eu seguinte' é dominante.

O reconhecimento da nossa multiplicidade marca uma etapa crítica no processo do trabalho. Sentimos uma grande instabilidade ao ver a nossa falta da identidade e pode induzir-nos num tipo de vertido psicológico que é amedrontador. Ironicamente, é por causa desta multiplicidade que encontramos a oportunidade de mudança intencional e a estabilidade real.

O trabalho ensina-nos como reconhecer, escolher e alimentar em nós os Eus que pertencem a um consciência mais elevada ou Eu real e como nos separar-mos ' de Eus prejudiciais ou que não expressam nosso Eu. real. Desta maneira, o trabalho trabalha na nossa psicologia sobre a nossa personalidade.

Mas o homem geralmente assume-se como um ' Eu ' e tem um retrato de si-próprio como a sua personalidade. Esse é o seu Eu imaginário. É um casaco posto por cada ' Eu ' de cada vez.

Há um outro ensinamento muito significativo sobre a personalidade no trabalho que gostaria particularmente de clarificar. Há um nível de desenvolvimento na personalidade chamado o Bom dono de casa. Isto significa uma pessoa que faz o seu dever na vida, vive responsavelmente com si-próprio e com o mundo, sem criminalidade ou perversão. Só uma pessoa que alcance este estágio chamado de Bom Dono de Casa é capaz para o trabalho. Se não pudermos viver uma vida ordinária decente, então não temos nenhuma possibilidade de sucesso no trabalho extraordinário. Nicoll: "deixe-nos outra vez recapitular o ensinamento sobre o ser. Primeiro, um homem deve estar na vida e ter tratado da vida e ter alcançado alguma posição adequada na vida e no conhecimento da vida e quando for um bom dono de casa, capaz de tratar das dificuldades e dos problemas ordinários da existência humana — isto é, o trabalho não é para As pessoas que procuram escapar dos fardos normais da vida. É para pessoas decentes normais e parte desse nível de ser. É muito importante que todos devemos compreender isto."

A psicologia da possível evolução

O desenvolvimento ou da evolução que são possíveis para uma pessoa na terra, na sua vida, é psicológico. Recorde-se que o homem é criado na terra como um Ser auto-evolutivo capaz de uma mudança psicológica auto-gerada — desenvolvimento. Este trabalho, que começa com o auto-conhecimento, é chamado auto-evolução porque é só através de esforços sinceros feitos intencionalmente por nós próprios que a possibilidade de evolução existe. É na, e através da energia do esforço para trabalhar que a evolução acontece. Cada pessoa deve fazer os seus próprios esforços para evoluir. Ninguém podem evoluir automaticamente ou pela compreensão intelectual, pela vizinhança, pela osmose, ou pelo conhecimento. Só o esforço interior pessoal do trabalho produz a força para a evolução. Este processo no trabalho trá-lo-á da psicologia do interesse próprio à psicologia da transcendência própria. Despertar de uma psicologia mecânica para uma psicologia consciente intencional é o nosso destino. É o que cada um de nós está aqui para fazer. O facto que este ensinamento existe é prova "dura" do Amor incondicional de Deus que nos alcança a nós mesmo na nosso insignificância; O seu amor muito pessoal por cada um de nós individualmente e igualmente.

A Linguagem de Ouspensky

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A linguagem foi criada por Grudjieff e complementada por Ouspensky que escreveu este livro chamado The 4th Way que foi de onde tirei os seguintes apontamentos.
Convém lembrar que isto foi escrito em 1924 ou assim. A Psicologia nessa altura era ainda menos evoluída e não existiam muitos dos conceitos que hoje conhecemos.
Um dos Projectos que acho que poderíamos construir a partir daqui (com a Nat à cabeça) seria complementar o que temos aqui com algumas coisas que a psicologia entretanto descobriu.

Seguem-se então alguns conceitos e ensinamentos do senhor (muito resumidos e um bocadito pintados por mim):

Considera-se que:
O Homem Não Está Desenvolvido: A maioria de nós não usa o seu potencial ao máximo, como acontece com a Natureza quando não é cultivada. Isto porque não temos as ferramentas necessárias, não conhecemos as condições que nos rodeiam e porque o intelecto é um processo novo na natureza e por isso não se encontra totalmente implementado. A consciência ainda não foi desenvolvida o suficiente para se usar a si própria como usa o resto.
O Homem Não É Uno: Pensamos que quando dizemos "Eu" estamos sempre a falar da mesma pessoa. Contudo somos muito diferentes de situação para situação. O que queremos hoje muitas vezes é diferente do que queremos amanhã... E depois de amanhã ficamos arrependidos que isso se passe. Isto acontece porque de facto apenas reagimos às situações, que determinam se agora somos este "Eu" ou aquele, em vez de agirmos segundo um plano.
O Homem não tem Vontade nem Consciência: Por sermos incompletos, por não termos noção dos nossos "Eus" e sermos incapazes de seguir com os nossos planos quando de facto os podíamos levar a cabo, provamos não ter vontade própria, mas simplesmente seguir o mundo naquilo que ele nos impõe. Não somos conscientes por que não nos lembramos do que queremos, fazemos e somos e assim não sabemos como chegámos a onde estamos nem como chegar aonde queremos estar.
Existem Pessoas Realmente Conscientes: Existem homens que são realmente completos, que usam uma linguagem realmente objectiva, que vêem a verdade no mundo e que concretizam os seus planos. Existem homens que fizeram obras realmente incríveis (como quem escreveu algumas partes da Bíblia, como Ghandi, como uma grande parte dos que se vêm sacrificando pelos outros) enquanto a maioria nem é consciente. (Ele diz isto de outra forma, mas eu não gosto.)


Conceitos:

The Study of the World
Lei dos 3: Tudo neste mundo é influenciado por três forças: positiva (activa), negativa (reactiva/passiva) e neutralizante. A consciência é uma força do primeiro tipo, como é a criação e manutenção da vida; forças criativas que requerem esforço e provocam beneficio a um sistema holístico. A perversidade, as calamidades naturais, o oportunismo cego em detrimento dos outros, etc. são forças reactivas, geradas por algo que responde a certos estímulos sem inovação ou esforço. O Tempo, a tendência para os opostos se atraírem, etc. são forças neutralizantes.
Lei dos 7: No Universo existe tendência para desvios. Chama-se lei dos 7 porque as 7 notas musicais não têm a mesma distância de frequência em duas instâncias. Para se fazer uma música não podemos apenas descer e subir as 7 notas. Exige um esforço para compensar esses desvios, explorar e utilizar notas que condigam.
Lei do Acidente: Os eventos acontecem sobre a Lei do Acidente quando se passam sem conexão à linha de eventos que temos observado. Muitos acidentes podem não ser observados.
Lei da Causa e Efeito: Uma lei intermédia entre a lei anterior e a seguinte. Quando o que somos é que causa um efeito naquilo que nos acontece. Muitos acidentes (no sentido estrito da palavra) acontecem dentro desta lei.
Lei do Destino: O destino para Ouspensky está ligado àquilo com que nascemos: família, dinheiro, saúde, capacidade física, etc. Esta lei raramente influência a capacidade do ser humano se desenvolver, embora raras vezes o destino possa ter um impacto muito importante numa vida.
Lei da Vontade: Existem duas vertentes desta lei: a Vontade dos outros, e a nossa. De momento já vimos que a própria não existe de facto e pouco podemos dizer à cerca das dos outros. Podemos falar do que correntemente chamamos de vontade como "disposição." (Isto difere do que o Ouspensky apregoa, mas eu não gosto de como ele o diz.)

The Study of Man
Centros: É o nome que se dão ás secções do comportamento humano. Não têm propriamente ligação com características biológicas, ou psicológicas; é puramente um sistema de encaixar comportamentos humanos em categorias.
Centro Instintivo: Para o Ouspensky os instintos são coisas puramente básicas, que não são aprendidas: fome, sentidos, funções, desejo sexual, sono, etc.
Centro de Mobilidade: Controla tudo o que aprendemos a fazer, mas que cujo o processo em si se faz sem ser ponderado: escrever, andar, falar, equilibrar etc.
Centro Emoncional: Trata daquilo que são as emoções: suspeita, amor, querer, medo, solidão, etc. É importante para orientar acções e por ser mais rápido que o Intelectual.
Centro Intelectual: É responsável por todas as acções racionais e analíticas como: analise de dados, formação de teorias, comparação de resultados, etc.
Centro Magnético: Este acumula pensamentos que sobrevivem vidas e que contrariam a desordem normal do mundo: relacionado com a espiritualidade.
Centro de Gravidade: "É um objectivo mais ou menos permanente e a consciência da importância relativa das coisas em relação a esse objectivo." Este centro é normalmente pouco desenvolvido.
Timing dos Centros: Os centros têm velocidades de funcionamento diferentes. O mais rápido é o primeiro e depois vai ficando mais lento. Esta é uma das formas de os distinguir. É também importante ter em conta o tempo que temos quando usamos um Centro. Quanto mais Centros tentarmos usar, melhor serão os resultados, mas raras e importantes vezes não há tempo suficiente para isto acontecer.
Funções: O Ouspensky chama àquilo que os centros controlam de "Funções." Convém termos em conta que muitas vezes nós usamos centros errados para executar certas funções (como usar o Centro Emocional para analisar uma situação da nossa vida). A maior parte das funções são executadas por vários centros (por exemplo criar arte pode usar todos os centros, ou apenas 4, ou apenas 3). Isto varia de pessoa para pessoa, por isso não se inserem funções em Centros. Na seguinte lista encontram-se funções úteis e prejudiciais:
Identificação: Acontece quando nos deixamos levar por um fenómeno qualquer e nos esquecemos de nós próprios. Por exemplo, se tens que ir para um lugar mas em vez disso encontras algo que te atrai e esqueces o teu objectivo. Se acontecer em relação a uma pessoa chama-se consideração.
Imaginação: É todo o pensamento que não tem utilidade. "O que estará ele a pensar?", "Eu dava-lhe três socos caia para o chão." "Um dia gostava de pegar num unicórnio e ir a cavalgar pela floresta." Não inclui imaginação no sentido de pensamento criativo.
Emoções Negativas: São emoções que não têm utilidade. O ódio e o medo, por exemplo, apenas fazem com que se aplique um preconceito a uma pessoa ou situação, quando o pensamento racional é muito mais eficaz. As Emoções Negativas vêm provavelmente de uma imponderada aplicação do sistema "Prazer-Dor" do Centro Instintivo ao Emocional e da tendência de utilizar este último (por ser mais rápido) para resolver situações que muitas vezes podem ser delegadas ao Centro Intelectual.
Mentir: Mentir é uma função que usamos muito e é sobretudo prejudicial quando a usamos contra nós. As mentiras estão na base da imaginação, dos limiares, etc.
Auto-Observação: A auto-observação é uma forma de observar uma função ou o funcionamento de um dos centros. Um exemplo é quando nos observamos (durante ou depois) a exprimir um sentimento.
Auto-Reconhecimento: O auto-reconhecimento tem a ver com a observação do todo que somos nós. Por exemplo, de começo podemos reconhecer que temos vários "Eus" e que a nossa consciência permite um controlo débil daquilo que somos.
Formação/Formulação de pensamentos: Existem dois processos de criar ideias. Um utiliza pacotes de ideias pré-concebidos e forma quase automaticamente uma ideia para a ocasião. O outro depende de um processo mais lento por depender da análise e tratamento de informação e formula ideias mais complexas e bem adaptadas.
Papeis: São grupos de "Eus" que se manifestam dependendo de certas condições. Esta manifestação pode não ser observada por outras pessoas e raramente é observada pelo próprio, sendo nesses casos justificada por limiares (ver a baixo.)
Limiares: São "desculpas" que usamos para justificar a existência de vários "Eus" e os seus conflitos (por exemplo "Isto aconteceu porque quando eu fico chateado tem que sair tudo da minha frente.")
Outras Divisões:
Personalidade / Essência: A personalidade é constituída por aquilo que vamos retendo; informações, frases, etc. Protege a nossa essência do mundo. Pertence à essência tudo aquilo com que nascemos: físico, saúde, predisposições, tendências, etc.
Conhecimento / Ser: O conhecimento é o que conseguimos assimilar (de forma a poder ser utilizado pela nossa capacidade de raciocínio e de abstracção) de uma certa informação. O ser é aquilo que somos neste momento. É a soma de tudo o que nos compõe: o nosso conhecimento, a nossa experiência, a nossa essência, personalidade, etc. Segundo Ouspensky, a distância que temos que percorrer neste "quarto caminho" é igual à diferença entre aquilo que somos e aquilo que pensamos que somos. (É bom reter que o conhecimento não é facilmente transmitido, porque a mesma informação vai ser assimilada ou não por pessoas dependende do ser destas.)
Aparelho de Formação:

Técnicas:
Usar Auto-Observação/Reconhecimento frequentemente: Temos que aprender o que somos, como funcionamos. Como as condições mudam a nossa forma de pensar, agir, sentir.
Esforço: Para podermos observar bem o que fazemos devemos esforçar-nos, porque nos lembramos dos nossos esforços e porque nos dá uma certa disciplina. Devemos contrariar aquilo que vemos que é mecânico, de forma a compreender como funciona. Devemos tentar contrariar o prazer de estarmos estáticos, para aproveitarmos o proveito de sermos activos.
Abolição das Emoções Negativas: Lendo Ouspensky parece-me que as emoções negativas são uma forma reduzida de interpretar os nossos instintos e de achar que o nosso centro emocional há de beneficiar de dor e desagrado.
Abolição da Identificação e Imaginação.
Entrar na Lei da Vontade: Ao respeitarmos estas outras técnicas e ao criarmos um Centro de Gravidade bem desenvolvido, nós fazemos com que os eventos que se passam na nossa vida saiam das Leis do Acidente, Causa e Efeito e Destino e façam parte da Lei da Vontade.